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01/04/2008

Na Favela de Heliópolis

Foto: Divulgação
Favela de Heliópolis. O sol batia no asfalto e devolvia aquele mormaço quente do meio-dia de um verão sufocante, cada vez mais sufocante. Um menino, com seus 10, 12 anos de idade, vem pela viela com uniforme de escola azul e branco. Vem feliz como todo menino que sabe que, quando chegar em casa, encontrará a mãe e o almoço quase pronto. Aquela felicidade quase despercebida, mas que ele, menino, lá no fundo, sabe reconhecer.
 
Chega, dá um salve para a mãe – que está dividida entre a pia e o fogão – e sobe uma escadinha estreita de cimento. Tira o uniforme e troca de roupa: camiseta sem manga verde-limão, shortinho cinza. Vai mexer nas coisas desarrumadas que estão ao lado da cama e do armário. Ali pega uma pipa azul clarinha, que ele mesmo fez.
 
Sobe mais uma escadinha estreita e mal feita que vai dar na laje da casa. Lá se dedica a empinar a pipa, naquele céu entrecortado de fios de eletricidade, naquele vento que antecede a tempestade. Parece coisa de Macbeth.
 
Ali ele vai dando fio para a pipa e dá um passo para trás. Mais fio, mais um passo, mais fio, mais passos, até que a laje acaba e seus passos não encontram mais nada que os sustentem.
 
Enquanto a mãe frita bolinhos de arroz, o menino despenca lá de cima e se entrega, morto, para aquele asfalto que derrete nossos pensamentos.
 
Essa é uma história comum na nossa periferia. Os meninos caem das lajes olhando para as pipas que imaginam estar perto do céu.

Enquanto a mãe frita bolinhos de arroz, o menino despenca lá de cima e se entrega, morto, para aquele asfalto que derrete nossos pensamentos

Essa história eu não vi, nem ouvi. Assisti numa televisão de 20 polegadas, numa sala de visitas de uma casa simples dentro da favela.
 
Era um vídeo VHS, sem qualidade nenhuma, mas ali deu pra sentir a necessidade que os jovens têm de contar as suas próprias histórias e a capacidade que eles têm, mesmo com pouquíssimos recursos, de realizá-las. Era um curta-metragem feito pelos meninos da favela de Heliópolis.
 
Quem filmou foi um garoto de 16 anos. A personagem-mãe “dividida entre a pia e o fogão” era a mãe do cinegrafista. A casa também era deles. E o menino que fez o personagem principal, na verdade, tinha 14 anos, e era o autor do roteiro.
 
Uma surpresa, uma maravilha... 
 

*Os textos publicados na área Colunistas são de responsabilidade dos autores e não exprimem necessariamente a visão do portal Pró-menino.



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