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O direito à inclusão na escola:entrevista com Ana Claudia Lodi, concedida à Rede SACI
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                                                                         *Ana Beatriz Teixeira Iumatti
No interior de São Paulo, no município de Piracicaba, uma iniciativa vem auxiliando a inclusão de crianças surdas na rede regular de ensino. É o Programa Inclusivo Bilíngüe para Surdos, da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP) em parceria com a Rede Municipal de Educação. Diferente da inclusão habitual, feita de forma isolada - um aluno com deficiência por classe - a ação leva grupos de crianças surdas para dentro das salas de aula regulares de escolas públicas. Para isso, professores são capacitados, intérpretes são contratados e até funcionários das escolas aprendem a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). À frente deste trabalho está a fonoaudióloga Ana Claudia Lodi, que tem mestrado em Educação - Distúrbios da Comunicação e doutorado em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem. Em entrevista à Rede SACI, ela explica como funciona o programa, que já caminha para seu quarto ano de existência.

Rede SACI: O que é o Programa Inclusivo Bilíngüe para Surdos?
Ana Claudia Lodi:
Temos um programa de atendimento bilíngüe para pessoas surdas da comunidade desde 1999, via curso de Fonoaudiologia. Qual era a nossa angústia? Conseguimos nos tornar uma referência na cidade para a comunidade surda, no sentido de pôr esta língua para circular e de trazer um reconhecimento da importância da LIBRAS para o desenvolvimento do sujeito surdo. Entretanto, no caso das crianças, não tínhamos respaldo educacional. Anteriormente, a educação era pensada da seguinte forma: havia uma escola do Estado e uma do Município, ou duas do Estado, com salas multiseriadas [alunos misturados em uma única sala com idades e séries diferentes], um trabalho voltado para oralização e adaptação do surdo ao contexto escolar e que acabava por estigmatizar a deficiência. Em 2003, a prefeitura municipal de Piracicaba fez contato com o curso de pós-graduação em Educação para tentar uma parceria a fim de se pensar nas questões de inclusão na cidade. Esta inclusão começa a aparecer de forma mais forte, até mesmo como cobrança legal para os órgãos públicos. E o que fazer? O pós-graduação em Educação, por meio da professora Cecília Ferreira, fez contato conosco para pensarmos especificamente a questão da surdez. Em decorrência desta exigência legal, acabamos montando um projeto de duas escolas municipais pólo/referência que já atendiam crianças ouvintes e que passariam a receber as crianças surdas. Com isso, estamos trabalhando com uma EMEI [Escola Municipal de Educação
Infantil] e uma EMEF [Escola Municipal de Ensino Fundamental - 1ª ao 4ª ano] para onde todas as crianças surdas, matriculadas na rede pública de ensino, vão estudar. Estas escolas se tornaram referência para a inclusão da criança surda. É necessário dizer que não acreditamos na inclusão isolada (uma criança surda por sala), é importante pensar em um grupo de crianças
 

O Programa insere cerca de seis ou sete crianças com deficiência por sala de aula
para que esta diferença seja relativizada. Ou seja, não é uma criança surda no meio de uma escola ouvinte, mas são grupos de crianças com características diferentes em uma mesma escola. Conseguimos em média ter de 20 a 25% de crianças surdas em uma classe, o que corresponde a seis ou sete crianças por sala. A Educação Infantil é a que sempre recebe menos, em função do diagnóstico tardio e da dificuldade das famílias aceitarem a questão do aprendizado da LIBRAS. Mas também não adianta colocar um grupo de crianças, se o professor não é capacitado e não sabe o que fazer. E se temos a convicção de que a LIBRAS tem de estar em circulação, o que fazer? Como viabilizar isso? Além das crianças, temos um intérprete em sala de aula que vai atuar de forma diferente daquele intérprete de evento pela própria característica e dinâmica do Ensino Fundamental e Infantil.

 

SACI: Qual a característica deste intérprete na Educação Infantil e no Ensino Fundamental?
Ana:
A característica deste intérprete na EMEI é fazer a mediação entre o que fala o professor (suas propostas) e as crianças. Mas, ao mesmo tempo, ele está lá junto, interagindo, ajudando nas atividades. O que é uma EMEI? Um grupo de crianças pequenas que desenvolvem atividades mais livres e o professor vai passando pelas mesas e pelos grupos de crianças. No caso, o professor passa pelos grupos com a assistência do intérprete, que trabalha no sentido de possibilitar que essas crianças surdas possam também tirar suas dúvidas e desenvolver linguagem, na medida em que chegam com uma defasagem muito grande nesta área. As crianças ouvintes já estão em pleno desenvolvimento de linguagem - falam, interrogam, expressam dúvidas -, enquanto que as crianças surdas não possuem ainda os mesmos recursos. O que pode acontecer é as crianças surdas imitarem as ouvintes. Por exemplo, é comum que o professor peça para que as crianças levantem as mãos quando souberem responder à pergunta. Uma criança surda pode imitar outras crianças levantando a mão, mas, muitas vezes, sem saber o porquê fazem. Portanto, a presença do intérprete é uma oportunidade da língua de sinais estar em circulação como maneira de garantir o processo de linguagem também para a criança surda. No Ensino Fundamental já existe o papel do intérprete como o concebemos; na frente, sentado ou em pé, passando o que o professor fala às crianças. Este aluno também tem defasagem de linguagem - ter 8, 9, 10 anos não significa ter desenvolvido linguagem desde pequeno. Portanto, lidamos com esta diversidade: crianças que vão para o Ensino Fundamental com bom desenvolvimento de linguagem e outras que nunca tiveram contato com a língua antes.

SACI: Como o intérprete lida com esta especificidade?
Ana: Existem diferenças de conhecimento de mundo, por exemplo, o rio de Piracicaba. O aluno surdo sabe que existe o rio, mas que se chama Piracicaba, provavelmente, não vai saber. Em relação a alguns conceitos os ouvintes já possuem um conhecimento prévio, adquirido por meio das relações familiares ou sociais. No caso das crianças surdas essas informações têm que ser “alimentadas” pelo intérprete porque, senão, elas também não têm como acompanhar o que o professor está dizendo. O intérprete, portanto, tem que perceber o que as crianças já conhecem ou não conhecem, tem que haver esta percepção o tempo inteiro. Em relação ao descobrimento do Brasil, por exemplo, as crianças ouvintes de alguma forma já ouviram falar, as crianças surdas, não. Ou seja, o intérprete tem de passar este conhecimento que falta às crianças surdas, sem perder o que o professor está falando.

SACI: É uma tarefa complexa perceber estas necessidades e conseguir transmiti-las em um curto espaço de tempo?
Ana:
É uma grande questão, o que é a inclusão social e o que é a inclusão pedagógica? Existe diferença. Não porque o surdo não pode, não é capaz, mas porque não tem acesso a muitos conhecimentos que são veiculados única e exclusivamente pela via
Tanto na Educação Infantil quanto no Ensino Fundamental vemos a parceria entre intérprete e professor
oral. Conhecimentos incidentais da TV, discutir um acidente que houve ou uma morte: a criança ouvinte pode estar brincando, mas, ao mesmo tempo, está escutando o noticiário ou a discussão entre o pai e a mãe sobre o assunto. A criança surda fica à parte disso, porque a Língua de Sinais circula pouco em casa.
Ela não tem esse domínio ainda da linguagem, com algumas exceções, então é bastante complexo este papel do intérprete.

 

SACI: Como se dá a parceria professor e intérprete?
Ana:
O intérprete tem planejamentos semanais com os professores para que as atividades sejam pensadas juntas e antecipadamente. Inclusive para preparar um material mais visual de acordo com a temática. É um trabalho de parceria. É importante dizer que também há, no período da tarde, duas vezes por semana, oficina de LIBRAS para os alunos. As crianças da EMEI ficam duas horas com uma educadora surda, que faz parte da equipe da escola e realiza o desenvolvimento de linguagem. No Ensino Fundamental acontece a mesma coisa. Tanto na Educação Infantil quanto no Ensino Fundamental temos a parceria entre intérprete e professor, e o educador surdo, que tem como função o desenvolvimento de linguagem das crianças, mas também de ensinar libras a todos os profissionais da escola - do porteiro à direção (não só aos professores, mas funcionários, merendeiras, portaria etc.).

SACI: Há uma adesão dos funcionários ao aprendizado da LIBRAS?
Ana:
De alguns tem, não posso dizer que seja de 100%, mas tem. Por que isso? Porque esta criança está em circulação na escola, e se esta escola abraça o projeto, esta criança tem o direito de pedir à merendeira o que ela quer comer, comunicar algo na portaria ou na secretaria da escola, ou fazer uma pergunta direta ao professor, sem precisar da mediação do intérprete. Em razão disso, todos os profissionais da escola fazem curso de LIBRAS; alguns ganham fluência, outros não. Mas pelo menos estas crianças são valorizadas em relação à Língua. No ensino Fundamental, o problema começou na aula de português, porque estão em salas de ouvintes, com metodologia de ensino pensada para alunos ouvintes. Em razão disso, pensamos em uma aula de português específica para os alunos surdos, com metodologia própria, na medida em que o português será transmitido para o aluno surdo como sua segunda língua. Dentro deste enfoque, as oficinas de LIBRAS e português são espaços freqüentados somente por alunos surdos e ministrados na Língua de Sinais.

SACI: E o português? Eles aprendem somente para escrever ou também para se comunicar?
Ana:
É só para a escrita. Caso a família ou a criança tenham o desejo e como finalidade, a fala, serão encaminhadas para a clínica fonoaudiológica.

SACI: Por que é preciso aprender LIBRAS? Qual a sua importância?
Ana:
É a única língua que vai dar possibilidade para que o surdo tenha um desenvolvimento de linguagem de forma análoga a nossa. Todos os processos pelos quais nós passamos, eles vão passar. Existem estudos que comprovam isto. Para sabermos o que significa este “análogo”, vamos pegar a fase de balbucio da criança. Quando uma criança está balbuciando, ela está falando e gesticulando com as mãos e os pés, está em movimento, fazendo ruídos, colocando a mão na boca etc. A mãe ouvinte faz que recorte diante desta situação? “Ignora” o gestual e valoriza o oral. Por exemplo, vai imitar o som, vai dar sentido àquele balbucio, vai fazer de conta que é um diálogo, e, de fato, podemos dizer que existe um diálogo que está sendo significado pela mãe. A parte motora, gestual será “posta de lado”, considerada apenas como um desenvolvimento motor. Mesmo processo acontece com a criança surda. Pais surdos vão fazer o recorte onde? No gestual, os movimentos da criança passam a ser significados, entram em diálogo, são imitados e a partir daí você tem todo o desenvolvimento que sabemos ter uma criança ouvinte. Vamos nos deter na questão de outro tipo de bilingüismo. Qual é o nosso tipo de bilingüismo, o da maioria? Você desenvolve o português como primeira língua e começa a ter contato com um ensino/aprendizagem mais formal de outra língua, geralmente o inglês ou espanhol. Você provavelmente vai aprender esta segunda língua a partir do desenvolvimento que teve do português, da sua primeira língua. E aí vai compreender como falar, o que falar, como se comportar nas diferentes situações discursivas. E quando você tiver contato com um aspecto mais formal, mais gramatical, fará relações com a sua primeira língua. Como em inglês, em que algumas relações gramaticais para nós são “invertidas”

SACI: Há uma diretriz do Ministério da Educação [MEC] para o ensino bilíngüe. Existe uma metodologia que é implementada por vocês neste programa, para passagem da LIBRAS para o português?
Ana:
Na verdade, tudo ainda é muito nebuloso nesta área. Existem experiências, estudos e até vídeos do próprio MEC que tentam servir como uma referência nesta questão, mas não existe uma metodologia única e fechada. Vou te falar um pouquinho do meu doutorado. Eu estudei como se dá a significação da leitura de surdos adultos, com muita dificuldade de leitura e escrita, para tentar entender quais os processos de que se utilizam para dar sentido às coisas, que diálogo é este entre a Língua de Sinais e o português. Em que acreditávamos? Qual era nossa proposição? Era de que antes da produção escrita, propriamente dita, fazemos “leituras”. Nenhuma criança começa a falar de imediato, primeiro ela “lê” o sentido da fala, do olhar, do toque da mãe. Toda nossa relação com o mundo passa primeiro por uma leitura da situação, para depois haver uma produção. Então, como nós trabalhamos o português com os surdos? Primeiro, por meio da imersão na leitura - muitos livros, textos, leitura de histórias e desenhos. Por exemplo, propomos que eles dêem sentido aos desenhos em LIBRAS ou que contem uma história em LIBRAS. Depois disso intervimos da seguinte forma: “Esta mesma história que você contou em LIBRAS está escrita aqui”. O que é que podemos aproximar, o que vocês já conhecem sobre esta história, o que ainda não? As crianças geralmente reconhecem palavras. Por meio desse reconhecimento prévio já sabem mais ou menos como é a história, além do apoio do desenho, ou seja, elas podem relacionar estes elementos e fazer uma leitura simples, para que depois isto vá sendo ampliado. Outro exemplo de intervenção se dá quando pedimos para que a criança conte a história em LIBRAS e nos propomos a escrevê-la.

SACI: Existem diferença com relação à função do Ensino Fundamental e Educação Infantil no trabalho com a criança surda?
Ana:
Existe sim, a própria característica de um e de outro. Vejo a Educação Infantil como uma escola com função pedagógica, não é só brincadeira. Pela própria idade das crianças são atividades mais lúdicas, mais livres: é um parque, um brincar, uma roda, mas com propósitos de aprendizagem. Enquanto que o Fundamental tem um ensino mais formalizado: é o sentar na cadeira, assistir às aulas. São escolas com características diferentes, inclusive para os ouvintes. Como é que lidamos com esta
questão do português e como está este processo hoje? Já algum tempo que trabalhamos com a prefeitura e achamos que as crianças estão tendo um ganho social muito grande, a LIBRAS circula, estão tendo amigos ouvintes e temos até uma curiosidade: os alunos ouvintes do Ensino Fundamental solicitaram à direção aula de LIBRAS. Em função disso, estamos com mais um educador surdo dando aula de Língua de Sinais a eles. Isso é muito legal e não podemos perder. Porém,
 

A LIBRAS é a única língua que dá a possibilidade para que o surdo tenha um desenvolvimento de linguagem de forma análoga a nossa
é aquilo que falei, a defasagem pedagógica é grande. As oficinas de português são bem-vindas e necessárias, não vejo uma outra forma possível de acesso ao português, dentro deste modelo de inclusão, que não seja em uma aula em que haja a correlação entre a LIBRAS e o português.

 

SACI: Como funciona o transporte escolar?
Ana:
Com a finalidade de não desrespeitar o direito das crianças de estudarem perto de suas casas e de concentrar as crianças surdas em duas escolas, a prefeitura (por meio da Secretaria de Educação, setor de Educação Especial) oferece o transporte escolar. Se não é possível, pela quantidade de crianças, passar em todas as casas, existem Centros de Referência onde a família leva a criança e a perua passa para pegá-las. Também é uma forma, já que eles não moram perto da escola, de não terem gastos com o transporte.

SACI: Como é feita a capacitação dos professores para este projeto?
Ana:
Esta capacitação não é uma coisa simples. Não vou falar que tudo dá certo. Existe resistência por parte de alguns profissionais, porém, em vários casos conseguimos negociar e realmente as transformações ocorrem. Nós temos uma reunião geral, uma vez por mês, e uma específica para fazer a discussão do que acontece na sala de aula – situações como: “por que ele não senta?”, “por que ele não faz?” – nestas capacitações tentamos entender o comportamento deste aluno, independente de ser surdo ou ouvinte, e disso tirar o que é específico. Um exemplo comum, que acontece de forma recorrente, é o professor de Ensino Fundamental fazer uma pergunta para a sala e as crianças terem que levantar a mão para responderem. Nesta situação, a criança surda não levanta só a mão, mas o corpo todo. Mas por que ela faz isso? Ora, porque ela precisa ficar visível e precisa ter espaço para sinalizar. Isto costuma criar uma grande confusão. Por quê? Qual é a tendência do professor? É pedir para sentar – porque se ele permite que este aluno levante, todos podem levantar! Nessas situações, você tem que explicar ao professor que se a criança fosse sinalizar sentada, ninguém iria perceber e entender o que ela estava sinalizando. É aí que entra a importância da orientação para os professores, além do que, fica evidente que eles não são os culpados, somente desconhecem algumas situações que são peculiares a aquele aluno.

*Entrevista concedida em abril de 2007.

 

 

 
 

Ana Beatriz Iumatti é colaboradora da Rede SACI
   


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