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10/10/2007

Paulinha II

Foto: Divulgação

Rua Rangel Pestana: um pouco Brás, um pouco Moóca. Destino: cine Imperial. A idéia não era assistir nenhum filme. O objetivo era procurar Paulinha, a menina de três anos de idade, que conheci três anos atrás, justamente nesse cinema.

Quando conheci Paulinha o cinema já não era cinema, era a casa dela. Ali, num cortiço imenso, com mais de 100 moradias, Paulinha vivia com a mãe.

Agora, eu, na rua Rangel Pestana, não conseguia reconhecer o endereço. Um tapume cercava um grande terreno. Não podia identificar ali nem o cortiço, muito menos o cinema.

Não tinha pedra sobre pedra; chão de terra, arbustos de mamona crescendo atrevidos por toda parte, e a flor cor de rosa do tabaco nascendo fácil no meio do mato.

Numa elevação do terreno reconheci o lugar da tela do cinema e da sala de exibição, lugar depois ocupado pelo lixo e pelos ratos. Agora era tudo terra arrasada, sem sinais da história do cinema, da história da vida de tanta gente que passou por ali, da história de Paulinha.

Começo a seguir pistas. O segurança do terreno diz que muita gente, que vivia por aqui, mudou para outros cortiços, nas ruas próximas.

Peço indicações mais exatas e vou atrás. Um portão estreito, um quintal comprido, dezenas de portas, em cada uma a casa de uma família.

“Na hora do apuro sou eu que passo mal... sou mais meu celular...”, canta um aparelho de rádio, sendo o primeiro colocado no item volume. Na porta aberta, encostado no batente, o autor da façanha: um homem jovem, forte, de short, sem camisa e desempregado.

Agora era tudo terra arrasada, sem sinais da história do cinema, da história da vida de tanta gente que passou por ali, da história de Paulinha

A vizinha dele, sentada no degrau da porta da casa dela, não combina com a trilha sonora: menininha de uns dois anos de idade, vestido vermelho, sandalinha branca, chupeta e boneca nos braços.

Ali encontro pessoas que viveram no cortiço do cine Imperial, algumas se lembram da Paulinha, e me contam novidades.

- A mãe da Paulinha teve outra menina, depois parece que ela perdeu a memória e foi internada.

- Quem tomou conta das crianças foi o pessoal da igreja, depois a mãe apareceu de novo, pegou as crianças, foi trabalhar num lava rápido e aí sumiu de vez.

O lava rápido fica lá perto. O dono diz que a mãe da menina trabalhou muito pouco tempo, nem deu pra registrar e um dia simplesmente não voltou mais.

Procuro pelos outros cortiços, uns cinco, espalhados pela vizinhança.

Encontro um homem que lembra da Paulinha.

- Eu ouvi falar que foram para São Mateus, numa favela, invadiram e foram prá lá, a mãe e as meninas.

Depois uma mulher conta uma história diferente.

- Eu sei que as meninas passaram pelo SOS Criança, da Febem.

E ainda uma outra versão.

- Eu soube que as meninas estavam num abrigo, só que não sei dizer qual abrigo estava a Paulinha. Elas foram recolhidas, acho que pelo juizado.

- E recolheram por quê?

- Por maus tratos da mãe.

- E a mãe onde está?

- A mãe também ninguém sabe onde está, provavelmente em algum albergue.

Vou até o SOS Criança, mas lá eles não revelam o nome de nenhuma criança internada, questão de segurança. Estão certos.

Paulinha nunca mais eu vi. Hoje ela deve ter nove anos.

Como será que cresceu em ambientes tão agressivos? Como será que deu conta do medo? Como será que conseguiu perceber o que é bom, o que é belo, no meio do abandono? Como será que a vida continua para Paulinha?

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