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20/05/2009

Trajetórias de vida de crianças e adolescentes pelas ruas do Rio de Janeiro

Irene Rizzini é pesquisadora da PUC-Rio e diretora Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância, na area de direitos das crianças e adolescentes

Há muitos anos temos acompanhado um mar de histórias de vida relatadas por crianças e adolescentes que se encontram nas ruas da cidade do Rio de Janeiro. São os chamados “meninos e meninas em situação de rua”, “street kids”, niños de la calle”, “enfants de la rue”.... denominação comum para um fenômeno que se tornou ampla e dolorosamente visível por volta da década de 1980, tendo custado as vidas de muitas crianças e jovens, que simplesmente lutavam para sobreviver.

As trajetórias que apresentamos e analisamos em nossas pesquisas representam as vidas de milhões de crianças e adolescentes no mundo. Seriam suas trajetórias de vida inevitáveis? Esta é a pergunta norteadora da presente coletânea de textos.

Os meninos e meninas que vemos pelas ruas são parte de um contingente maior de pessoas que migram de um lugar a outro. São pessoas deslocadas ou exiladas de seus contextos de origem – uma das características notáveis de nossos tempos. As crianças em situação de rua têm vários de seus direitos violados e constituem um exemplo vivo das contradições de nossos tempos, ou seja, a distância entre o discurso emergente de direitos e a real situação de agravamento das desigualdades sócio-econômicas.

Defende-se o direito que as crianças e adolescentes têm à convivência familiar e comunitária, porém não se lhes asseguram condições mínimas para que possam sobreviver dignamente e permanecer em seus lares. Pelo contrário, como veremos nos relatos de suas vidas, eles parecem nascer sem lugar no mundo. Suas vidas são marcadas, desde o início, por adversidades contínuas, forçando-os à circunstâncias desumanas, que vão compondo o pano de fundo de suas trajetórias. Embora ocupem as ruas com sede de viver, suas histórias são pautadas por episódios de fome, desastres, mortes, perdas, falta de opção e de apoio.

Há mais de vinte anos acompanhamos os percursos destas crianças e adolescentes. Não apenas crianças brasileiras, mas tantas outras que pelo mundo afora se movimentam entre suas casas, as ruas e as instituições em busca de proteção e de um lugar onde se sintam pertencentes. São diversos os fatores de ordem política mais ampla que determinam os processos excludentes que afetam as vidas de cada uma destas crianças e suas famílias. Porém, este tipo de afirmação sugere que não há o que se possa fazer para mudar este quadro. Não acreditamos nisso. E, ao fazermos essa afirmação, baseamo-nos nas experiências de vida e nos depoimentos das crianças e adolescentes . Apesar da constante exposição à frustrações e decepções, eles mantêm acesas as esperanças e demonstram ter consciência e lucidez quando refletem sobre suas vidas...

“A sociedade não entende nosso lado. Eu sei que a gente faz errado em tá na rua, mas às vezes a própria sociedade faz a gente entrar na droga mais rápido, entendeu?... eu acho que todo mundo merece uma chance na vida. Uma, não, várias! Só tem que aproveitar”. (Sabrina, 15 anos).

“Se eu fosse presidente? Ia fazer tanta coisa boa...” (Waldyr, 17 anos).

“... eu ajudava os meninos de rua pra eles voltar pra casa. Eu queria ajudar os pobres... eu queria que não existia tráfico na rua. Queria que existisse paz” (Derico, 12 anos).


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