"Só se o peão for muito ruim!" Diria, em relação à afirmação acima, quem está acostumado a ter suas necessidades prontamente atendidas.
"O animal pode não estar com sede", replicaria aquele que está em contato direto com as intercorrências da vida no dia-a-dia cotidiano.
Tais reações refletem duas posturas extremadas diante de um fenômeno que acompanha o ser humano por toda a vida, que é a constante provocação de que o mundo não funciona de acordo com o que se pensa ou deseja.
Existe a tendência de se acreditar que se conhece o mundo em que se vive, o que contempla uma necessidade de segurança e alimenta a idéia de controle/poder. Este movimento costuma proporcionar uma certa tranqüilidade interior, que é difícil de ser abandonada. Mesmo quando acontece algo diferente do esperado, costuma-se atribuir responsabilidade a algo ou alguém, afinal é confortante a sensação de que as coisas andam conforme o previsto. Porém, esta vivência tem prazo de validade curto e logo se impõe uma realidade para dar fim a esse suposto bem estar. É quando se constata a existência do "outro", que acaba por trazer a necessidade de se questionar sobre a razão de nem tudo seguir da forma imaginada.
O "outro" pode ser uma outra pessoa, uma parede, uma chuva forte e até mesmo um cavalo; ou seja, qualquer ser, organismo, objeto, ou entidade que se diferencia do "um". A descoberta do "outro" nem sempre é agradável. Pode ser frustrante quando algo não está conforme "deveria estar". Tal constatação, entretanto, é importante para o crescimento pessoal, pois através dela é que alguém adquire consciência da própria capacidade.
Enquanto não se sabe o quanto se pode fazer, pode-se cair na tentação de que é possível fazer tudo. É preciso lembrar, entretanto, que essa é apenas uma face da sensação de não se fazer nada. Dito de outro modo, o peão que acha possível determinar que o cavalo vai beber água quando ele, peão, acha que deve, provavelmente vai se sentir incompetente quando levar o animal até o bebedouro e o cavalo não se comportar como o esperado.
É como se ele "caísse do cavalo"!
Por outro lado, pode-se dizer que o cavalo é um "outro", que tem vontade própria, e que funciona de um jeito que nem sempre está de acordo com o que o seu tratador pensa ou quer. Esta descoberta pode dar ao peão a condição de saber que ele tem a sua parte a fazer, mas o cavalo, como um "outro" que é, também tem o seu papel nesta estória. Ou seja, tal aprendizado diz que ambos, cavalo e peão - "um" e "outro" - são seres autônomos. A consciência desta condição de autonomia1 pode ser a diferença entre o pretenso poder da dominação e o poder da liberdade.
1 Autonomia: Faculdade de governar por si mesmo. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.