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14/11/2008

Santa Fé

Foto: Divulgação

Desde os nove anos de idade Daiane era molestada sexualmente pelo padrasto. Reclamava para a mãe dela. A mãe, por sua vez, batia na menina a cada queixa. Quando tinha 11 anos, Daiane ficou grávida. A mãe pegou o neto para criar e expulsou a menina de casa. Daiane foi morar na rua. Um dia chegou na Cracolândia, na boca do lixo, em São Paulo. Ali se viciou em crack.
 
A história de Daiane é muito parecida com a de milhares de meninas que vivem nas ruas. Na rua, a condição da menina se agrava. Normalmente, ela acaba se entregando a algum protetor que a defende dos perigos da rua. Aí novos filhos virão.
 
A Associação Santa Fé, uma Organização Não-Governamental, trabalha com esse público de crianças, meninos e meninas, com vivência de rua e maus tratos, casos de estupro dentro do ambiente familiar.
 
As pessoas da Santa Fé criam vínculos com esses meninos das ruas e aí começa o esforço de trazer essas crianças de volta, para um convívio dentro de uma casa, outra vez, mesmo que seja uma casa abrigo.
 
Daiane foi uma dessas meninas. O esforço de recuperação levou alguns anos. Quando Daiane não estava drogada, aceitava e ia até a casa abrigo, mas logo fugia para a rua outra vez, com endereço certo: cracolândia.
 
As assistentes sociais da Santa Fé perderam a conta de quantas vezes foram atrás de Daiane na rua. No auge do efeito do crack, enquanto Daiane se debatia, as assistentes sociais, pelo menos duas, ficavam horas abraçadas nela até que o efeito da droga passasse e aí então ela aceitasse: a casa, a comida, a cama limpa para dormir.
 
Assim, muito lentamente, começou a nascer uma relação de confiança. Daiane ficava ali, gostava de tudo, mas ainda não acreditava completamente em ninguém. Sempre acabava voltando pra rua e para o crack. Ela achava que se alguém estava lhe dando algum carinho, certamente iria querer alguma coisa em troca. 

"Para Daiane, essa é a verdadeira família dela: as assistentes sociais, psicólogas e todos os funcionários da Santa Fé. É para lá que ela vai no Natal, nos dias de festa."

Quando tinha 14 anos, Daiane ficou grávida outra vez. Continuou a viver pela rua até o dia em que percebeu a iminência do parto. Aí não teve dúvidas, correu para a casa abrigo Santa Fé, a bolsa estourou ainda no portão de entrada, o pessoal da casa correu para levá-la até o hospital e tudo correu bem com o parto e com a criança.
 
Dali em diante Daiane aceitou a cama limpa, a comida, a casa, o carinho. Hoje Daiane tem 28 anos, trabalha, tem sua casa, vive sozinha com seus dois filhos, cada um de um pai diferente.
A vida não está resolvida para ela, as dificuldades de sobrevivência continuam. Mas ela tem para onde ir quando precisa de uma conversa, de algum conselho, de alguma ajuda.
 
Para Daiane, essa é a verdadeira família dela: as assistentes sociais, psicólogas e todos os funcionários da Santa Fé. É para lá que ela vai no Natal, nos dias de festa.
 
Depois de tudo o que passou, pergunto a Daiane que conselho ela daria para uma menina que vai morar na rua.
E ela, que não teve opção porque foi expulsa de casa, diz: “é preferível apanhar o quanto for dentro de casa, agüentar tudo, ainda assim é melhor do que viver na rua...”.


 

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