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24/04/2008

A vida amarrada no sisal

Foto: Divulgação
Chegamos em Valente e ainda era dia; dia de vento quente batendo seco no peito. Dia comprido de sol vermelho se pondo na terra seca e cinza, alaranjando os mandacarus, os xique-xiques, as catingueiras, os canudos de pito, as flores espigadas do sisal, erguidas em hastes para o céu. Esta é a última beleza do sisal. A flor anuncia a morte da planta, mas é também um sinal de resistência no meio de terra tão seca. Como se fosse uma resposta da vida.

Como se fosse um sertanejo também.

Estamos em terra do sisal. Valente, sertão da Bahia.

Foi ali, numa entrada de vila, numa estradinha pra dentro da estrada principal da rodovia do sisal, que vimos a escola. Era o resto de uma antiga fazenda de sisal. No galpão onde um dia funcionou a batedeira, o maquinário que prensa o sisal e faz os fardos, hoje funciona a escola.

Entre os contornos da máquina, víamos as crianças. Meninos e meninas de 7 a 10 anos de idade. O ambiente era escuro, embora fosse dia claro, de sol pleno, e mal dava pra se enxergar o que estava escrito na lousa.

Natalia escrevia e em seguida apagava. Uma, duas letras e já usava a borracha. Apagava, apagava como se a borracha pudesse apagar tudo o que não gosta nesta vida.

Cabelo duro, acalmado pelas tranças, sandália de dedo, unhas pintadas de vermelho, descascadas.

É aqui neste ambiente, sempre impregnado pelo fantasma do sisal, que Natalia e as outras crianças passam a melhor e mais leve parte do dia.

Quando saem dali, vão direto para os campos trabalhar no corte da palha do sisal. Um trabalho perigoso, feito com facão, para cortar folhas pontiagudas e duríssimas, que já cegaram muita gente.

É neste ambiente, sempre impregnado pelo fantasma do sisal, que Natalia e as outras crianças passam a melhor e mais leve parte do dia.

Não é só ela. São muitas outras crianças trabalhando no corte do sisal junto com a mãe. É preciso. Se não for assim, não se ganha nada. Quem lucra é o dono do sisal, que depois faz os tapetes e vende para o Brasil e para a Europa.

As famílias da região sisaleira da Bahia compõem os cinco milhões de brasileiros que declararam ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não ter nenhuma renda no ano de 2002, quando foi realizada a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

Segundo o Ministério da Educação (MEC), no semi-árido, 22,8% dos adolescentes do campo estão fora da escola. Adolescente da área rural tem quase quatro vezes mais possibilidade de ser analfabeto do que aquele da área urbana.

No semi-árido, apenas 9% dos professores do campo são formados em universidades. O salário desses docentes é quase a metade dos professores das áreas urbanas. (Dados do Relatório da Situação da Infância e Adolescências Brasileiras - Unicef)

Quando a gente conversa com algum jovem da região sisaleira, mesmo os que se preparam para entrar na faculdade, praticamente todos, um dia, cortaram a palha do sisal quando eram crianças.

Alguns que não conseguem estudar, quando ficam mais velhos, trabalham na máquina que transforma o sisal em fibra, onde muitos jovens já perderam o braço, ou a mão. A máquina não tem segurança; é a mesma desde os anos 1940.

Parece que nunca ninguém se importou em desenvolver uma tecnologia que pudesse impedir a mutilação de jovens trabalhadores.
 

*Os textos publicados na área Colunistas são de responsabilidade dos autores e não exprimem necessariamente a visão do portal Pró-menino.



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