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Causos do ECA
04/07/2006

Escola e ciganos: por que não? - Premiado do 2º Concurso "Causos" do ECA

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Categoria ECA na Escola

Escola e ciganos: por que não?

Viviane Souza e Silva
Caçapava, SP


Descalços, com roupas coloridas, meninos de chapéu e meninas com saias até os joelhos. Não são duas nem três crianças... Vejo mais de 20 delas sorridentes e satisfeitas com seu modo de vida. Diferentes de muitos arranjos familiares "modernos", essas crianças têm em seu cotidiano uma realidade rara: possuem pai, mãe e seus avós estão por perto. Tios, primos e sobrinhos também fazem parte deste universo.

Não falo de algo distante, presente nos livros de história, nem me refiro às famílias tradicionais, cujos componentes residiam num mesmo local. Vejo à minha frente membros de uma família numerosa, sim, em pessoas, mas com inúmeros direitos violados. Eles não têm carteira de vacinação, não possuem fotos nem registro de nascimento. Não têm acesso ao posto de saúde nem aos serviços públicos. Escola? O que é mesmo isso para um povo situado à margem da sociedade?

Falo dos ciganos. Vejo crianças ciganas, muitas delas, com seus longos cabelos louros e seus olhos azuis ou esverdeados, que brilham ao se deparar com meus olhos castanhos que as observam. Admiro suas relações, seus afetos e sua segurança quando estão perto de suas mães. As barracas de lona colorida estão espalhadas ao redor da chácara e, ao soar do meu "bom-dia", eis que se aproximam, com um andar lento e receoso para questionar o que estou querendo.

Sou conselheira tutelar de um município que compreende alguns acampamentos de famílias ciganas. Município este onde muitos cidadãos ainda não aprenderam a olhar os ciganos para além de sua higiene precária, para além dos rótulos de "trombadinhas" e "pedintes". De início, a resistência, certa grosseria e pouca correspondência às orientações. Ainda impregnados pela doutrina do Código de Menores, vigora em seus pensamentos a idéia de que "ninguém vai tirar as crianças daqui". Percebi que já não
era possível alcançar êxito apresentando-me como representante do Conselho Tutelar, já que não era vista como defensora de direitos, mas sim, recebida como alguém que impõe obrigações. Como me aproximar? Como ser acolhida e ter a chance de me apresentar como alguém que busca sua promoção e não sua dissipação?

"Diferentes de muitos arranjos familiares 'modernos', essas crianças têm em seu cotidiano uma realidade rara: possuem pai, mãe e seus avós estão por perto"

Eis que uma pesquisa pela Internet leva-me a um contato com a Pastoral dos Nômades. Por e-mail, relato ao padre responsável todas as dificuldades em intervir junto aos ciganos, bem como exponho a preocupação em garantir àquelas crianças seus direitos fundamentais. O padre, em resposta, conta que já havia estado com os ciganos desta cidade e que havia realizado várias celebrações de batizados e casamentos neste acampamento. Em seguida, abre as portas e aponta o novo caminho: sugere que eu realize a entrega de algumas certidões que estavam em sua posse. E assim procedo. Ao chegarem pelo correio as certidões, acompanhadas de algumas fotos também enviadas pelo "Padre Cigano" - assim chamado pelos que o conhecem -, vou até o acampamento. Qual foi a minha surpresa ao lhes falar do padre: ótima recepção e livre acesso a seu meio. É preciso tão pouco: atenção e compreensão, insistência e muitas visitas ao território onde se encontram. Aceitar que, quando querem confidenciar algo entre eles, usam seu dialeto próprio. É preciso escutá-los e, como seres humanos que são, respeitá-los como tais.

As crianças, pouco a pouco, reconhecem-me e já se achegam, alegres e cheias de perguntas. Mas a minha alegria fica completa ao ter a liberdade de perguntar a elas o que achavam de ir para a escola e obter uma resposta positiva, com olhares de esperança e sorrisos de aceitação. Entra em cena o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante igualdade de condições para o acesso à escola pública próxima à sua residência. Confiantes, os ciganos informam os locais onde residem outros parentes. Já não encontro acampamentos, encontro, enfim, ciganos que residem em casas alugadas de alvenaria, num bairro periférico da cidade.

Apesar de protegidos do sol e da chuva, permanecem desprotegidos do preconceito. Vejo que a escola como espaço de formação do indivíduo e de cidadania pode ser o carro-chefe para a introdução de novos hábitos, sobretudo aqueles relativos à higiene e à comunicação, bem como para a valorização dos traços culturais dos ciganos rumo à inclusão social. Dou prosseguimento à trajetória da garantia efetiva do direito à
"Minha alegria fica completa ao ter a liberdade de perguntar a elas o que achavam de ir para a escola e obter uma resposta positiva, com olhares de esperança e sorrisos de aceitação"
educação, entro em contato com a secretaria municipal de educação, que garante as vagas para a matrícula das crianças na rede. Sobrevém, entretanto, a preocupação da direção da escola municipal, situada no bairro, diante do desafio de acolher os novos alunos. Mas nada que um bom diálogo e o trabalho em rede não possam ajudar, permitindo a criação de alternativas e a abertura de oportunidades para o crescimento pessoal e relacional.

Nessa perspectiva, a preocupação transforma-se em motivação para que a diretora agende reunião com os pais das crianças na minha presença. Ao ser receptiva e acolhedora, a diretora foi igualmente compreendida por eles. Em meio a sorrisos, apresenta aos pais (acompanhados pelos filhos), as dependências da escola, enfatizando os horários a serem cumpridos e as expectativas de todos os funcionários em recebê-los. As crianças, eufóricas, transmitem sua motivação e seu contentamento por adentrar no ambiente escolar.

As aulas começam. Todo o receio de que os novos alunos pudessem ser discriminados ou rejeitados pelos demais cai por terra. A inocência e a simplicidade das crianças espalham-se e surpreendem todos nós. Os professores, certos da importância do tratamento igualitário, porém, respeitando as diferenças, apresentam com tranqüilidade os conteúdos, propagando a pedagogia do respeito e da amizade. Mas ainda há muito que fazer.

Esta história não tem fim, pois longo é o caminho a ser percorrido, outros direitos a serem garantidos, mas vale realçar que a escola trouxe aos pequenos ciganos mais dignidade, solidariedade e a possibilidade de demonstrarem o que são: pessoas, cidadãos, humanos!

 



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