Aprender, desenvolver-se, transformar-se, melhorar continuamente, são exigências de nossa época. Mas como e onde o ser humano adulto pode aprender? Uma pequena investigação nos mostra que há três caminhos bem diferentes - e provavelmente complementares - para que a aprendizagem aconteça.
A educação formal
O caminho mais conhecido é aquele em que instituições de ensino preparam e oferecem aos seus alunos situações organizadas de aprendizagem: escolas, universidades e outros centros de formação que atuam inclusive dentro do âmbito do trabalho oferecem cursos, seminários, palestras, em que, em função de determinados objetivos pedagógicos, os processos de aprendizagem são planejados e organizados antecipadamente e se realizam dentro de um período de tempo pré-definido. Para que isso aconteça, profissionais capacitados para tanto - professores, instrutores e outros formadores - são chamados a colaborar, transmitindo conhecimentos relativos àquelas metas específicas de aprendizagem.
Esta é a chamada "educação formal", à qual cada pessoa terá acesso de acordo com sua própria determinação e também com o que permitem as condições sociais de vida em que ela está inserida. Em todas as camadas sociais, nos mais longínquos lugares, pessoas se mobilizam e empenham seus esforços para alcançarem melhores condições de colocação num mercado de trabalho onde a alta competição deixa para trás os mais despreparados para atuar. Podemos encontrar sinais desse fenômeno na proliferação de escolas e cursos os mais variados que, a partir do ensino fundamental, lotam classes de jovens e adultos que se esforçam para melhorar sua capacitação: são cursos técnicos, profissionalizantes, graduações, e até mesmo as pós-graduações e MBAs.
Entretanto, essa educação formal tem assumido algumas características importantes e pode produzir efeitos, sobre os quais é importante lembrar:
- As formações profissionais são freqüentemente unilaterais. Voltadas exclusivamente para a aprendizagem de conceitos e técnicas específicos relacionados à uma determinada prática profissional, elas exercem uma influência fortemente condicionadora sobre o aluno que pode vir a causar as chamadas "deformações profissionais" no futuro.
- Ao privilegiar a apropriação de conteúdos e técnicas específicos pelo aluno como o resultado desejado, o ensino formal utiliza uma série de ações passivas no processo da aprendizagem, ignorando muitas vezes o ser humano que o aluno é, com motivações e perguntas próprias.
- Ao se ensinar o que é certo e o que é errado, não se incentiva o aluno a formar julgamentos autônomos, o que pode gerar uma postura profissional profundamente crítica e arrogante de menosprezo a tudo o que não é feito de acordo com aqueles preceitos técnicos incorporados na formação profissional, o que acaba por revelar uma crença cega na autoridade da ciência ou da técnica.
Tudo isso leva a considerar que, apesar de necessária, a educação meramente formal é insuficiente para o nosso tempo, pois uma verdadeira "formação de adultos" não poderia prescindir de uma visão mais abrangente do ser humano, que fomentasse a capacidade de aprender e de colocar-se ativamente no mundo a partir de julgamentos livres.
A escola do destino
Há, entretanto, um segundo caminho de aprendizagem ao qual todas as pessoas estão sujeitas, mas muitas vezes não se dão conta ou não valorizam: é a aprendizagem a partir da própria vida, a "escola do destino", por assim dizer. Neste caminho não há um currículo pré-determinado, nem situações planejadas para a aprendizagem, nem instrutores formalmente capacitados. Muito diferentemente disso, o currículo consiste na própria história de vida de cada indivíduo, dependendo das circunstâncias em que vive, das características pessoais, das escolhas que são feitas. Aqui cada pessoa é colocada constantemente diante da diferença entre suas capacidades, potenciais e fraquezas, e aquilo que a sua vida lhe apresenta em termos de necessidades, perguntas e desafios.
O que está em jogo neste caminho é o próprio desenvolvimento do ser humano como tal, pois se pode imaginar que cada situação de vida contém um desafio de aprendizagem para o ser humano e que o aprendizado sempre dependerá de quão consciente ele se torna sobre o conteúdo de sua própria vida, de quanto cada um consegue aprender a partir de suas próprias experiências e dos encontros pessoais que a vida lhe proporciona. Muitas vezes o significado de um determinado evento na vida de uma pessoa só poderá ser compreendido muito tempo depois, olhando-se retrospectivamente em direção ao passado. Aí então se poderá perceber, por exemplo, que uma dificuldade vivida num momento específico pode ter contribuído para o amadurecimento de uma característica ou uma habilidade que será extremamente importante e útil num outro momento. Ou então que o que foi percebido como uma contrariedade pode ter facilitado o encontro de pessoas que trouxeram novas possibilidades, então ainda não consideradas.
Observando cada biografia humana, muito se pode aprender e compreender: os temas que se colocam, os problemas que se repetem, o que se construiu em razão de situações difíceis, as pessoas que contribuíram.
Quando se está atento especialmente para o que foi aprendido ou para o que se poderia fazer melhor em cada dia, este é um caminho que pode se mostrar muito instrutivo: um silêncio ao invés de uma risada, uma frase mais respeitosa, uma pergunta ao invés de uma conclusão, uma ajuda ao invés de uma crítica ou mesmo uma atitude mais desafiadora no lugar de uma submissão.
Tudo isso evidencia que esse caminho contém uma sabedoria profunda que traz a cada um exatamente aquilo de que ele necessita para seu próprio desenvolvimento. Nele, todos são aprendizes: do mais jovem e inexperiente ao mais velho e mais preparado, sempre há o que aprender.
A auto-educação
Mas há ainda um terceiro caminho de aprendizagem que podemos denominar como o "caminho da auto-educação". Este se refere ao caminho que cada um percorre em contato consigo mesmo.
Da Antiguidade até a Idade Média a humanidade percorreu este caminho através das várias escolas iniciáticas conhecidas como "centros de mistérios" onde os aprendizes cumpriam um severo programa de auto-educação orientado por mestres que os conduziam ao conhecimento de fatos espirituais. "Conhece-te a ti próprio" já era o lema de uma dessas antigas escolas.
Em nossa época, entretanto, até em função de que o crescente processo de individuação exige cada vez mais autonomia pessoal na formação de juízos, não é mais exigida a obediência estrita a um mestre para se auto-desenvolver; ao contrário, o aprendiz pode escolher alguém que o aconselhe e oriente, mas ponto de partida fundamental é incorporar uma postura de pesquisador moderno, onde se aceita o que foi realmente compreendido, mas se mantém com abertura de espírito para compreender o que ainda não foi captado.
O caminho da auto-educação só pode acontecer no espaço íntimo de cada um, quando se consegue silenciar a matraca mental e penetrar nas camadas mais profundas da consciência com o propósito de iluminar aspectos desconhecidos relativos ao próprio comportamento, à forma como se reage aos eventos que a vida traz, à forma como se reage com simpatia ou antipatia a determinadas pessoas, à forma como se constroem os próprios julgamentos, aos critérios que embasam as decisões que são tomadas.
Muitas vezes essa auto-educação tem a ver com aprender a lidar com o próprio temperamento. Alguns exemplos podem contribuir para tornar um pouco mais claro o que aqui está sendo dito:
- Uma pessoa colérica poderá, a partir da percepção de que inibe ou, mesmo, assusta os outros com sua assertividade e suas explosões de ira, se propor aprender a transformar essa cólera ao longo da vida. Poderá assumir o desafio de controlar a forma como reage quando é contrariada ou quando se depara com coisas "erradas", do seu ponto de vista, e se propor a perguntar, sem ofender o outro, o motivo daquilo ter sido feito como foi.
- Já alguém que apresenta características de um temperamento mais sanguíneo, que é atraído por inúmeras atividades e se entrega a elas de forma desordenada acabando por deixar muitas sem finalização, poderá se propor a fazer uma coisa de cada vez, e a não assumir compromissos que não poderá realmente cumprir.
Aprender, no sentido desse terceiro caminho, significa aprender a se conhecer, implica em se transformar na própria sala de aula, criando, interiormente, as condições necessárias para que a aprendizagem aconteça. Esse caminho é o que pode contribuir efetivamente para que cada indivíduo se torne um ser humano melhor, na medida em que é nele que se buscam respostas para as questões pessoais, para a compreensão da própria tarefa e responsabilidade perante a humanidade e perante a própria Terra.