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24/04/2008

A rotina silenciosa de milhões de brasileiras

Daniela Rocha*

Ilustração: Carlos Gonzalez
O trabalho infantil doméstico continua oculto, em uma realidade que abrevia a infância de quase meio milhão de crianças no país. O Dia da Trabalhadora Doméstica, 27 de abril, também serve de alerta para esse problema
Era uma família pobre, com cinco filhos. A mais velha, com dez anos, cuidava dos outros quatro irmãos menores para que sua mãe pudesse trabalhar. Doméstica, a mãe tomava duas conduções para chegar ao trabalho, do outro lado da cidade. Eram duas horas para ir, duas para voltar. Essa mãe seguia tranqüila para o trabalho porque sabia que sua mais velha cuidaria dos pequenos.

O coração só apertava no período da manhã, porque a menina e os outros dois maiorzinhos estavam na escola. Então os mais novos, de um e dois anos, ficavam com a vizinha, que também tinha um bebê recém-nascido para cuidar. "Será que eles estão bem?" A resposta que ela queria, ou que tinha que acreditar, era que sim, eles tinham que estar bem...

O pai das crianças, há tempo ela não via, mas sabia que morava não muito longe dali. Mesmo assim, ele quase nunca visitava as crianças, e ela até preferia assim. Ajuda em dinheiro, ele nunca dava mesmo.

A rotina do trabalho tomava quase todo o tempo do dia. Na volta para casa, quase às oito da noite, sempre parava na mercearia para levar um pacote de biscoito ou uma caixinha de leite, sabão de coco ou água sanitária. E cada dia era uma luta. O menino do meio estava com problema na escola. Mas que jeito para ir à reunião com a professora? Só se fosse de madrugada.

A menina mais velha, sempre responsável, já sabia fazer tudo: lavava roupa, trocava fralda, fazia mamadeira para o bebê. A única coisa que reclamava é que, às vezes, queria brincar na rua, mas sabia que não podia, pois tinha muita coisa para fazer em casa. Parecia uma adulta – muito elogiada pela mãe. A menina de dez anos ajudava a educar os pequenos, trancava a porta – não abria para ninguém. A mãe dizia sempre que era perigoso. A mãe sabia que ela era ainda pequena, mas não tinha jeito, a menina precisava cuidar da casa e das crianças para que a mãe conseguisse trabalhar para o sustento. Em seu coração, sabia que não era o ideal... A menina sequer tinha lápis de cor e papel, boneca, bola ou bicicleta.

Um dia, choveu muito. O trânsito parou. O ônibus lotado não andava. A mãe, calada, abafava no peito um desespero. Desespero de mãe – "Como as crianças estariam?" A resposta era sempre o que ela queria acreditar – que estavam bem. Mas, naquele dia, ela sabia que eles não tinham nada para comer em casa. No aperto do ônibus, tentou em vão um celular emprestado para ligar para a vizinha. O celular estava sem crédito. A mãe silenciou em oração, com um nó na garganta. Algo lhe dizia que não era certo, que aquilo não estava certo, o lugar dela naquela hora era em casa.

O dia 27 de abril evoca uma homenagem às brasileiras trabalhadoras domésticas, e faz lembrar que no Brasil, quase meio milhão de crianças têm sua infância abreviada por assumir a responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos menores.
Dez horas da noite e nada de a mãe chegar. A filha mais velha telefonou para a polícia. O pedido de socorro chegou ao conselheiro tutelar, que foi ao encontro das crianças. Quando a mãe chegou, um alívio. Estavam todos lá, mas ela foi convocada para uma conversa com o conselheiro.

No dia seguinte, ligou para a patroa – não poderia ir ao trabalho porque precisava ir ao Conselho Tutelar. A conversa ganhou ares de tábua de salvação. O conselheiro viu a necessidade de aquela mãe ter seus filhos pequenos na creche – conseguiu vaga para eles. Era meio longe, mas valia a pena. Para os maiores, não havia como inseri-los na jornada ampliada – ações socioeducativas no contraturno escolar – porque a escola não oferecia. Mesmo assim, orientou a mãe a ir à escola para resolver o problema do menino, prestes a repetir de ano, e a falar com as professoras dos outros dois.

Em parte, tudo o que a estava incomodando começou a se encaminhar. Ainda não era a situação perfeita, mas ela percebeu que podia melhorar. Aquele foi o início de muitas mudanças. E ela pôs na cabeça que, naquele ano, daria uma bicicleta para sua filha mais velha.

Essa história pode parecer banal. Tão banal que não está nas páginas dos jornais, não ganha destaque, não é manchete ou tema de filme e de livro. É uma história que, de alguma forma, acontece com quase sete milhões de mulheres, contingente de trabalhadoras domésticas em nosso país. Esta é uma história em homenagem a essas trabalhadoras incansáveis, por seu dia – 27 de abril.

Essa data faz pensar também nas quase 500 mil crianças que têm sua infância abreviada pelo trabalho infantil doméstico. É um problema ainda oculto e culturalmente aceito, mas que traz enormes prejuízos, entre eles, o atraso escolar e o abalo na auto-estima, jornada excessiva de trabalho e problemas físicos e psicológicos para os estudantes.

Ex-trabalhadora doméstica infantil, uma mulher no Brasil carrega consigo a bandeira pelo fim desse tipo de exploração: Creuza Oliveira, presidenta da Federação Nacional dos Trabalhadores Domésticos (Fenatrad). A ela se dirige também esta homenagem.

 


Os textos publicados na seção Colunistas são de responsabilidade dos autores e não exprimem necessariamente a visão do Portal Pró-Menino.


Leia também:
- Confira entrevista com Creuza Oliveira, presidente da Federação Nacional dos Trabalhadores Domésticos
- Site da Agência de Notícias dos Direitos da Infância dedicado ao trabalho infantil doméstico



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