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18/04/2007

Racismo e desempenho escolar - mais um desafio para a educação

Foto: Divulgação
Como se dão as relações raciais nas escolas brasileiras? Há racismo nelas? Como se manifesta? Indagações como essas são o ponto de partida da pesquisa "Relações Sociais na Escola: Reprodução da Desigualdade em nome da Igualdade"1, realizada em cinco capitais brasileiras - Salvador, Belém, São Paulo, Brasília e Porto Alegre - entre 2003 e 2005.

O racismo em geral pode ser expresso pela forma de falar e agir com relação ao outro, seja de forma sutil, mascarada, ou direta. Ocorre racismo quando o outro é considerado inferior por suas características fenotípicas - por sua cultura e ancestralidade -, e avaliado por estereótipos - por traços julgados como distantes em relação a um padrão culturalmente privilegiado.

Na primeira parte da pesquisa acima citada, foram analisados os dados do Sistema de Avaliação de Educação Básica (Saeb), de 2003, avaliação nacional do Ministério da Educação (MEC), sobre a proficiência escolar em matemática e português. Os números indicariam que os estudantes negros têm as mais baixas pontuações, tanto nas séries do Ensino Fundamental como nas de Ensino Médio. Essas diferenças aumentam nas séries mais avançadas: na 4ª série do Ensino Fundamental, a média da nota dos alunos brancos é 12,40 pontos superior à dos alunos negros; enquanto que na 3ª série do Ensino Médio esse número aumenta para 22,41.

O estudo também indica que, quanto mais elevada é a classe social da família dos alunos, menor a proporção destes com pontuação crítica ou muito crítica2 em matemática, quer entre brancos, quer entre negros. Tal achado pode sugerir que os negros de grupos socioeconômicos pobres têm, com maior probabilidade, mais desempenho escolar mais baixo seja por falta de recursos, capital familiar, impossibilidade de os pais ajudarem nas lições, mas principalmente por fatores relacionados à própria escola, que tem como conseqüência, muitas vezes, a desmotivação e baixa auto-estima dos alunos.

Também foi feito, no âmbito da pesquisa "Relações Sociais na Escola: Reprodução da Desigualdade em nome da Igualdade", um estudo qualitativo em 25 escolas de Ensino Fundamental e Médio - cinco por capital - sobre as relações raciais nas salas de aula, no recreio e no entorno das escolas. Nessa análise, foram ouvidas 500 pessoas em grupos focais - entre crianças e jovens da comunidade, alunos, professores, diretores e pais -, além de realizadas entrevistas com outras 132 pessoas.

Os entrevistados afirmam que há racismo no Brasil, porém ninguém se auto-denuncia como racista
A maioria dos entrevistados tende a negar que há diferenças no desempenho escolar entre alunos negros e brancos. Os professores são mais veementes em recusar tal constatação. Mesmo os professores que concordam que os alunos negros têm pior desempenho, quando não culpam as crianças e os jovens por um "baixo desempenho", tendem a responsabilizar suas famílias, de forma a afirmar que elas "não cuidam", "não acompanham os trabalhos", "não têm nível", "não têm condições econômicas" (palavras de professores ouvidos).


Há, então, racismo nas escolas brasileiras?

Em geral, os entrevistados afirmam que há racismo no Brasil, porém ninguém se auto-denuncia como racista, mesmo que por seus atos e indiferenças marginalize o outro, uma criança ou um jovem negro. De fato, aponta-se, comumente, o outro como racista e não a si mesmo.

Ao se declararem contra o racismo, indiretamente colaboram para que não se discutam e não se proponham formas de identificar sutis manifestações de discriminação. O comum é a afirmação de que na escola todos são tratados como iguais. No entanto, muitos alunos negros choram e se constrangem ao contar sobre apelidos e tratamentos considerados discriminatórios.

Quando as relações entre alunos carregam afetividade, são consideradas positivas. Dessa forma, tende-se também a negar que há práticas racistas nas escolas - xingamentos, depreciação quanto às características físicas e apelidos - muitas vezes são justificados pelos professores como "brincadeiras".

A pesquisa conclui que a reprodução das desigualdades raciais na escola se dá, muitas vezes, por boas intenções, em nome da igualdade, ou seja, considerando que é necessário haver um tratamento igualitário para todos. Não se muda uma cultura pautada em uma imaginada democracia racial sem políticas públicas de intervenção, de combate ao racismo, desnaturalizando práticas educacionais e tipos de relações sócio-raciais. Mais problemático do que posturas que alimentam o racismo é a miopia social, ou seja, o não-reconhecimento que a indiferença, a discriminação e o preconceito existem e a falha em considerar que brincadeiras, apelidos e tratamentos violentos aos que pertencem à raça negra pode, na prática, significar a reprodução do racismo.


*Os textos publicados na área Colunistas são de responsabilidade dos autores e não exprimem necessariamente a visão do portal Pró-menino.


Veja também:
  • Livro organizado por Miriam discute as relações raciais dentro das escolas
  • Rappin Hood fala sobre a importância do Hip-Hop nas periferias brasileiras
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    1 - Castro, Garcia Mary e Abramovay Miriam (coord). Edições UNESCO , Brasília, 2006

    2 - A proficiência escolar dos alunos é uma medida que espelha seu desempenho em português e matemática. Em matemática, o valor esperado para um aluno da 4ª série é de 250 pontos, sendo que uma pontuação de até 125 pontos é considerada "muito crítica" e de 175 pontos "crítica". Na 8ª série a pontuação esperada é de 325 pontos, sendo que um valor de 175 pontos é "muito crítico" e 250 "crítico". No 3º ano do Ensino Médio o valor esperado é de 400 pontos, sendo "muito crítico" até 200 pontos e "crítico" até 300.

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