“A minha casa é de broco...” dizia Catiene, fazendo inveja pras amiguinhas enquanto brincavam na beira da linha do trem em São Miguel Paulista.
- Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar... eu tirava a Catiene do fundo do mar..., siriri pra cá..., siriri pra lá... a Catiene é velha e não quer casar...
- Lixeira! Lixeira! Lixeira!
Catiene tem quatro anos e fica emburrada ao ser chamada de lixeira. Segura o choro de braços cruzados e olha para as amiguinhas que giram em roda continuando a brincadeira, sem se importar, nem perceber a ofensa.
Em seguida, chamam a menina pra voltar pra brincadeira e ela volta sem rancor, transformando o choro em risada.
Depois, converso com ela.
- O seu pai trabalha em quê?
- Lá no bueiro.
- Ele trabalha no serviço da prefeitura, na rua. É limpando, limpando a rua que nem ela falou, limpando o bueiro, diz a mãe de Catiene.
- Ele traz brinquedo do bueiro para mim, completa Catiene.
Nuvens encorpadas num céu de anil, um menino e uma menina estão entretidos numa brincadeira na rua de terra. Ele tem um caminhãozinho carregado de pedras, e ela dá a direção: mais para a esquerda, mais para a direita. E então ele joga as pedras em cima de uma água escura que escorre pelo chão da favela.
- Do que vocês estão brincando?, eu pergunto.
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As brincadeiras e os assuntos infantis parecem caminhar bem longe do mundo da fantasia e da inocência infantil
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- De esgoto, respondem eles.
- Eu vi um homem morto lá na beira do rio.
- Morto de que jeito?
- Cobrido por um lençol branco.
- Mas o que tinha acontecido com ele?
- Deram um tiro nele.
Um grupo de crianças entre sete e dez anos, mais ou menos, conversa numa rodinha na rua de terra. O tema é o medo. Cada uma quer contar as piores coisas que viu, ou sentiu.
- Um dia eu tava dormindo, foi nesse dia que ela contou que o irmão dela morreu, aí eu tava dormindo, aí eu tava ouvindo tiro. Sempre que eu vejo a perua da polícia eu tenho medo.
- Medo de quê?
- Que tenha ladrão em cima da minha laje.
- Eu tenho medo, porque passa tanto ladrão na rua da minha escola, aí quando é de noite chega um monte de polícia, e o ladrão assim com a arma lá. Todos os dias tem ladrão lá na escola.
- Eu tenho medo... por causa que um dia na casa da menina, morreu duas mulher, a menina, a filha dela ficou viva e duas menina ficou morta, com uma bala na barriga.
As brincadeiras e os assuntos infantis parecem caminhar bem longe do mundo da fantasia e da inocência infantil. Não que elas tenham escolhido esse caminho, mas convivem com uma realidade que as obriga a ter outros pensamentos. Como se não existisse um espaço para a criação, um espaço para ser criança.
Catiene conta que tem dois CDs: um do Banana de Pijama e outro do Bonde do Tigrão. E canta e dança com a música que alguém colocou...
- Só as cachorras... o bonde do tigrão...
Catiene repete gestos que viu na TV. Gestos que marcam a sua vida de menina pequena. De menina que cresce nestes tempos em que as palavras não significam o que significavam. Os bondes não são mais bondes. O tigre não é mais um bicho. O rio é apenas o esgoto que passa, o bueiro é o lugar do mistério onde as coisas mais belas podem ser encontradas. O esconderijo dos brinquedos.
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