Brasil,
Receba o boletim
Busca Avançada
Home >> Colunistas >> Texto
Colunistas
29/01/2008

O esconderijo de brinquedos

Foto: Divulgação

“A minha casa é de broco...” dizia Catiene, fazendo inveja pras amiguinhas enquanto brincavam na beira da linha do trem em São Miguel Paulista.

- Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar... eu tirava a Catiene do fundo do mar..., siriri pra cá..., siriri pra lá... a Catiene é velha e não quer casar...

- Lixeira! Lixeira! Lixeira!

Catiene tem quatro anos e fica emburrada ao ser chamada de lixeira. Segura o choro de braços cruzados e olha para as amiguinhas que giram em roda continuando a brincadeira, sem se importar, nem perceber a ofensa.

Em seguida, chamam a menina pra voltar pra brincadeira e ela volta sem rancor, transformando o choro em risada.

Depois, converso com ela.

- O seu pai trabalha em quê?

- Lá no bueiro.

- Ele trabalha no serviço da prefeitura, na rua. É limpando, limpando a rua que nem ela falou, limpando o bueiro, diz a mãe de Catiene.

- Ele traz brinquedo do bueiro para mim, completa Catiene.

Nuvens encorpadas num céu de anil, um menino e uma menina estão entretidos numa brincadeira na rua de terra. Ele tem um caminhãozinho carregado de pedras, e ela dá a direção: mais para a esquerda, mais para a direita. E então ele joga as pedras em cima de uma água escura que escorre pelo chão da favela.

- Do que vocês estão brincando?, eu pergunto.

As brincadeiras e os assuntos infantis parecem caminhar bem longe do mundo da fantasia e da inocência infantil

- De esgoto, respondem eles.

- Eu vi um homem morto lá na beira do rio.

- Morto de que jeito?

- Cobrido por um lençol branco.

- Mas o que tinha acontecido com ele?

- Deram um tiro nele.

Um grupo de crianças entre sete e dez anos, mais ou menos, conversa numa rodinha na rua de terra. O tema é o medo. Cada uma quer contar as piores coisas que viu, ou sentiu.

- Um dia eu tava dormindo, foi nesse dia que ela contou que o irmão dela morreu, aí eu tava dormindo, aí eu tava ouvindo tiro. Sempre que eu vejo a perua da polícia eu tenho medo.

- Medo de quê?

- Que tenha ladrão em cima da minha laje.

- Eu tenho medo, porque passa tanto ladrão na rua da minha escola, aí quando é de noite chega um monte de polícia, e o ladrão assim com a arma lá. Todos os dias tem ladrão lá na escola.

- Eu tenho medo... por causa que um dia na casa da menina, morreu duas mulher, a menina, a filha dela ficou viva e duas menina ficou morta, com uma bala na barriga.

As brincadeiras e os assuntos infantis parecem caminhar bem longe do mundo da fantasia e da inocência infantil. Não que elas tenham escolhido esse caminho, mas convivem com uma realidade que as obriga a ter outros pensamentos. Como se não existisse um espaço para a criação, um espaço para ser criança.

Catiene conta que tem dois CDs: um do Banana de Pijama e outro do Bonde do Tigrão. E canta e dança com a música que alguém colocou...

- Só as cachorras... o bonde do tigrão...

Catiene repete gestos que viu na TV. Gestos que marcam a sua vida de menina pequena. De menina que cresce nestes tempos em que as palavras não significam o que significavam. Os bondes não são mais bondes. O tigre não é mais um bicho. O rio é apenas o esgoto que passa, o bueiro é o lugar do mistério onde as coisas mais belas podem ser encontradas. O esconderijo dos brinquedos.

*Os textos publicados na área Colunistas são de responsabilidade dos autores e não exprimem necessariamente a visão do portal Pró-menino.



Leia também:
Daniela Rocha reflete sobre o papel do Brasil na luta mundial contra o trabalho infantil


Volte para a home de Colunistas


Faça seus comentários sobre o texto acima
(0)comentário(s) Enviar seu comentário.

Textos relacionados


O Portal recomenda

Este site é melhor visualizado em resolução 800x600 ou superior e está otimizado para os navegadores
Internet Explorer 6.x e Mozilla FireFox 1.x.
© Copyright 2008, "Fundação Telefônica"