O Núcleo Zeus de Estudos Goetheanísticos, uma instituição sem fins lucrativos de caráter cultural, está localizado em Parelheiros, região de Santo Amaro, no limite da zona sul da cidade de São Paulo com a Serra do Mar, numa área de proteção aos mananciais da represa de Guarapiranga
Foi fundado em 1981 por um casal pioneiro para ser um Núcleo de formação de profissionais e organização de cursos na área de Terapia Artística, Medicina e Farmácia Antroposófica, Formação Biográfica e Pedagogia Social. São 5 movimentos-filhos que nascem no seio deste Núcleo, inspirados na visão antroposófica do homem.
Com o passar dos anos, estes movimentos-filhos crescem e começam a definir seus próprios caminhos de desenvolvimento. Eles já não cabem mais naquele espaço e alguns decidem sair de casa para formar suas próprias famílias. Foram assim criadas associações ou sociedades para manter e dar vida própria a estes movimentos.
Três deles tomam rumos que os distanciam do Núcleo Zeus, enquanto que outros dois , apesar de assumirem personalidade jurídica própria, decidem manter o Núcleo Zeus como sendo o seu lar.
Durante este período a casa é mantida por uma entidade filantrópica criada pelo pioneiro. A receita obtida com os cursos é limitada e insuficiente, pois os clientes se resumem a um nicho de mercado muito específico.
O Núcleo Zeus só se mantém funcionando por que os investimentos da mantenedora são constantes e volumosos. Em 1993, a a entidade mantenedora decide "cortar o cordão umbilical" e com isso a iniciativa quase fecha as portas. O Núcleo Zeus fica acéfalo durante algum tempo e, tomando um caminho natural, convida os dois movimentos-filhos para assumirem o comando da casa.
Em 1995, após várias negociações, um novo grupo com fortes ligações afetivas com a iniciativa e acreditando na sua importância para o mundo assume o comando. Para isso é criada a Sociedade Zeus para Promoção da Prática Goetheanística, formada por representantes dos movimentos-filhos A entidade mantenedora cede o patrimônio em regime de comodato. O filho é empurrado para vida, mas o pai ainda continua bancando suas contas.
Inicia-se uma nova gestão, mas funcionando da mesma forma, ainda com o foco voltado para o mesmo segmento. A ineficácia se observa nos baixos índices de ocupação e no déficit mensal. A situação chega ao seu limite extremo.
Em 1996, com a contratação de um novo gestor, que chega com energia e idéias novas e conta com o apoio da nova direção, inicia-se um processo de mudanças profundas no Núcleo Zeus.
Inspirado na sugestão de um hóspede tradicional e muito vinculado à missão da organização, este novo gestor propõe que a casa se "abra para o mundo" e assume o desafio na certeza que "o mundo tem necessidade de um espaço como este".
Este novo direcionamento causa tensões na diretoria da Sociedade Zeus e uma parte do grupo se desliga por não concordar.
Uma nova relação jurídica é considerada necessária para dar conta desta fase. É criada então uma empresa de prestação de serviços que se encarregará da gestão operacional do Núcleo Zeus. Os funcionários antigos são demitidos e parte deles é readmitida nesta empresa, agora numa relação societária junto com o gestor. Um primeiro ensaio de gestão participativa é feito nesta época.
Começam a aparecer novos clientes e a casa precisa ser reformada e adaptada para atender a uma nova demanda, o que é feito graças a injeção de recursos vindos de doações no exterior.
Novos membros se juntam à diretoria da Sociedade Zeus e com eles este novo direcionamento começa a tomar contornos mais claros. Uma nova missão é formulada no início de 1998 retratando a mudança de foco: "Propiciar um ambiente de acolhimento e aconchego para favorecer o encontro, o convívio e o aprendizado."
Com isso, se inicia um primeiro exercício de planejamento estratégico, juntamente com o aprimoramento dos controles operacionais, buscando tornar a iniciativa viável e independente financeiramente.
Apesar de serem raros os esforços de comunicação, a instituição passa a ser procurada por uma infinidade de novos clientes. As condições que o espaço oferece e a qualidade dos serviços prestados atinge emocionalmente boa parte dos clientes que por lá passam e eles mesmos se tornam os "garotos propaganda" do Núcleo Zeus.
Conforme expressa o gestor, "o que antes era um conceito ensinado nos cursos mas não vivia na organização, agora é vivo na prática diária e acontece de fato"
A questão da taxa de ocupação, crucial para qualquer empreendimento desta natureza, que antes era baixíssima, agora se inverte e a casa tem os finais de semana praticamente tomados durante o ano todo. Os segmentos de mercado são diversificados e os clientes tornam-se parceiros. A receita cresce e com isso o resultado operacional sai do vermelho.
Seguindo diretrizes estabelecidas no planejamento estratégico, é desenhado um projeto traçando metas claras e serve como veículo para restabelecer a conexão com a entidade mantenedora que, assumindo um nítido posicionamento de confiança, decide fazer novos investimentos na modernização do patrimônio, fundamental para os planos da instituição.
O Núcleo Zeus passa por uma sensível reformulação que, porém, não atinge todos os níveis: a identidade está alinhada e definida por uma nova missão que foi aceita interna e externamente; no físico, são visíveis as mudanças com as reformas e ampliações da casa. Porém, não sobraram energias para uma mudança no campo das relações e dos processos.
Asseguradas pela atuação pessoal do gestor, as relações com os clientes agora são boas e calorosas, porém são ainda amadoras com os colaboradores e ineficientes com a diretoria da Sociedade Zeus. O processo operacional desenvolve-se bem, mas os processos administrativos, jurídicos e de sucessão são relegados a um segundo plano, trazendo preocupações adicionais.
"A mudança não foi tão difícil, difícil é sustentá-la." diz o novo gestor. Logo aparecem novas sombras: centralização, personalismo, novas relações de dependência, dormência e acomodação "nos louros".
A partir de meados de 2003, uma nova fase está se delineando com inicio de um processo de sucessão da diretoria. Um novo grupo de pessoas é convidado a participar do conselho, a partir da decisão de retirada do grupo dos mais antigos. Porém agora são pessoas que não tem um vinculo afetivo com a instituição e trazem com eles uma inovação: por não existir a confiança cega, a decisão de participar ou não é tomada em liberdade, com plena consciência da situação e condições.
Questões para reflexão:
- Por que estágios ou fases típicas uma organização como essas passa?
- Como é exercida liderança nos diferentes momentos? Qual é a base da sua autoridade?
- Qual é o papel da diretoria / conselho em cada estágio?
- Que tipo de variáveis afetam a sustentabilidade de uma organização como essa?
- Que cuidados devem ser tomados em estágios mais maduros?