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Antes de ensinar, aprender
- Não adianta nem chamá-lo para participar do grupo, porque ele não vai.
Assim fala a professora sobre Hélio, aluno da quarta série do Ensino Fundamental de uma escola pública estadual de Curitiba (PR). O menino, que sorriu quando o convidei a participar de um dos grupos de sua turma, olha para a professora e baixa a cabeça.
Hélio é um garoto alto - mais alto que todos os alunos da escola -, de cabelos claros e olhos cor de âmbar. Através de seus olhos, é possível enxergar um brilho que mistura a inocência de uma criança com a vontade de mostrar seus desejos, de se comunicar com o mundo. Sua ficha escolar se compõe de uma série de laudos pedagógicos e psicológicos, que formam uma verdadeira pilha de papéis. Questionadas acerca do menino, o que as professoras e a pedagoga da instituição dizem é que basta ler esses laudos para tentar entender "o mundo de Hélio". Papéis, papéis e mais papéis. Nem mesmo os profissionais que outrora o atenderam chegaram a um consenso. Pautas do transtorno global de desenvolvimento? Uma síndrome rara? Uma doença sem nome? O único ponto em comum é a conclusão: Hélio não fala com desconhecidos.
Chegando à escola, ouço uma voz grave atrás de mim e, curiosa, viro para trás. É um senhor de cabelos brancos, óculos, chinelos nos pés. Barba e bigode, também brancos, revelam uma idade mais avançada. Ao seu lado, vem Hélio.
- Tchau, pai! Dá aqui a mochila! - Ele pega a mochila da mão do pai e entra no pátio da escola. Dirige-se até a sala de aula sem falar com ninguém. Entra na sala, senta na última carteira e ali fica. A professora passa tarefas no quadro negro, faz ditado de palavras, explica conteúdos. Hélio continua sentado em seu lugar, olhando para o teto e para os colegas. Depois de um tempo, perto do horário do recreio, a professora pergunta:
- Hélio, você nunca faz atividade nenhuma, né? O que acontece com você, menino?
Ele olha para ela, para os colegas e baixa a cabeça. A professora continua sua aula normalmente. O sinal toca e as crianças saem correndo para o recreio. No pátio, duas delas acenam para Hélio. Ele sorri e olha para o teto. Perto de mim, uma funcionária da instituição revela que "é sempre assim, ele nunca fala com ninguém". Os grandes olhos dourados do menino viram-se para ela.
Depois de alguns dias observando o que se passava na escola, apresentei às professoras a idéia de um projeto que servisse como ponto de partida para uma escola inclusiva.
- Ué, mas a nossa escola é inclusiva. A gente tem dois alunos deficientes aqui dentro... - rebate uma delas.
Na semana seguinte, começaríamos a fazer grupos de estudo com as professoras para ler textos sobre inclusão e estudar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Com os alunos, paralelamente, seriam feitas oficinas de educomunicação - as próprias crianças produziriam um programa de rádio na escola. Para isso, obviamente, deveriam falar umas com as outras, reunir-se em grupos, escolher quem entrevistar, formular perguntas. Para ajudá-las a formularem as perguntas, as crianças receberam o ECA.
Ao longo do processo de produção do programa, os alunos reuniam-se em grupos e não deixavam Hélio de fora. Perguntavam de que grupo ele gostaria de participar e, olhando à sua volta, ele logo se dirigia a uma das equipes. Ali, ainda que não falasse, comunicava-se com os amigos pelo olhar e por gestos afirmativos ou negativos com a cabeça.
Na turma da quarta série, duas perguntas, em especial, instigaram a diretora: "Por que existe discriminação na nossa escola?" e "Toda criança tem os mesmos direitos, mas aqui existe preconceito, né?" A diretora respondeu, mas começou a perceber que algo realmente precisava ser feito para modificar essa situação. Enquanto isso, na sala dos professores, aconteciam encontros a cada 15 dias para discutir o ECA e assuntos ligados à inclusão. Um espaço de troca de experiências e aprendizado estava se formando entre todos, o que permitia que cada professora relatasse seus medos e angústias sem constrangimento.
Foi nesse mesmo espaço que a diretora contou o episódio das perguntas dos alunos da quarta série e mostrou que, ainda que existissem alunos com necessidades especiais na escola, eles não participavam dela efetivamente. Estava surgindo, assim, uma verdadeira comunidade escolar. Não importava se a professora da terceira série não tinha nenhum aluno com necessidade especial - era dever dela também ajudar a pensar o menino Hélio e tantos outros dentro da escola. Diferentemente do habitual, as professoras passaram a cumprimentar Hélio cada vez que o viam. Diferentemente do habitual, as professoras passaram a ver o menino como um ser humano de verdade, e, como tal, alguém que ouve e entende o que os outros dizem - ainda que não responda verbalmente.
O fato é que, depois de algum tempo, Hélio aprendeu a responder "oi" e "tchau" para as pessoas dentro da escola. Também conquistou um espaço interessante, ao lhe ser permitido abraçar a pedagoga ou beijar sua professora, por exemplo. Talvez ele não soubesse, também, que era tão querido pelos colegas de sua classe, que agora falavam com ele constantemente, mesmo sem receber de volta uma resposta verbal.
Quanto ao grupo de estudos entre as professoras, ele continua a acontecer. Ainda que a escola já tenha obtido muitos ganhos com esses encontros, o trabalho nunca se concluirá. Sempre haverá algum fato novo a ser discutido ou uma situação em que a troca de idéias é válida. Com o ECA na mão e uma bagagem enorme de experiências pessoais a contar, as professoras da escola têm agora, como meta, não só ensinar, mas também se tornar um grupo que aprende.
- Tchau, Carol! - fala Hélio à pedagoga, ao sair pela porta da sala de aula e se dirigir ao pátio da escola, onde seu pai o espera.
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