Categoria ECA como instrumento de transformação
Da imaginação para a realidade: a criação do super-herói Perereca
Tarciana de Queiroz Mendes Campos
Fortaleza, CE
Abriu a pequena mala e colocou só o necessário para um dia de viagem. Foi apressado para a estação rodoviária da cidade de Fortaleza, já com a passagem rumo a Palhano, município localizado no interior do Ceará. Acomodou-se na cadeira do ônibus e, com os olhos atentos na paisagem que se alegra de luz e verde quando dá uma chuvinha, concentrou-se para a aventura que o aguardava. Muito sério, de óculos no rosto, saiu do ônibus com a malinha na mão e passou despercebido pelos moradores de Palhano. Entrou num restaurante e perguntou onde era o banheiro.
– É lá nos fundos – disse, desatento, o garçom.
Poucos minutos depois, o mesmo garçom tomou um grande susto ao olhar para a porta do banheiro. O homem sério que entrara havia se transformado totalmente: sandálias de couro, roupa verde, capa vermelha, máscara nos olhos, chapéu de cangaceiro na cabeça, um enorme “P” estampado na blusa, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no bolso e um grande sorriso. |
"Eu sou o Perereca, super-herói do semi-árido, defensor dos direitos de crianças e adolescentes e dos princípios da boa amizade e da brincadeira" |
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– Oxi, quem é o senhor? – perguntou, confuso, o garçom.
– Muito prazer, rapaz. Eu sou o Perereca, super-herói do semi-árido, defensor dos direitos de crianças e adolescentes e dos princípios da boa amizade e da brincadeira.
– Vixe, mas o senhor acabou de entrar no banheiro todo sério, parecendo gente normal e sai super-herói?
– Eu estava disfarçado, amigo. Não posso andar sempre como super-herói. Você sabe como é, as fãs podem atacar... Rá rá rá... Mas, me diga, onde fica o Conselho Tutelar de Palhano? É que marquei um encontro com os cinco conselheiros da cidade.
– Ora, o Conselho é logo ali. Mas me desculpe a curiosidade, o que o senhor quer com os conselheiros?
– Marcamos de visitar uma escola aqui da cidade pra conversar com a criançada. Mas agora deixe-me ir, rapaz, chegarei ao Conselho Tutelar voando. Até mais ver!
A caminho do Conselho, o super-herói Perereca causou alvoroço na pequena cidade de Palhano. Conversador que só ele mesmo, puxava assunto com a criançada, cumprimentava as famílias. Xiii, quase que não chega. Quase. Porque, quando chegou, foi uma festa dentro desse Conselho Tutelar, era foto de tudo quanto era jeito, até que o conselheiro tutelar Carlinhos lembrou da visita que tinham que fazer à escola. E lá se foi o Perereca, defensor do ECA, rumo à escola de ensino infantil de Palhano, no maior papo com os conselheiros tutelares.
– Mas, seu Perereca, me explique aí como foi sua história? Como o senhor virou super-herói defensor dos direitos da meninada?
– Carlinhos, minha história é uma prova de que qualquer idéia, qualquer sonho pode se tornar realidade. Escute bem, lá em Fortaleza, existe uma organização não-governamental, chamada Catavento Comunicação e Educação. O pessoal que trabalha lá fez uma parceria com o Unicef e bolaram um projeto chamado Bom Conselho a Gente Faz.
– Oxente! E como é esse projeto?
– Calma que eu vou contar, dona Bebel. A idéia do projeto era de trocar informações sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e sobre os Conselhos Tutelares pelo rádio.
– Menino, é o programa Conselhos para o Futuro, que passa aqui na rádio comunitária da cidade.
– Isso mesmo, Dudu. A equipe do Catavento começou a imaginar como seria o programa. Teria que ter entrevistas com advogados, promotores, médicos, conselheiros tutelares e também com a criançada. Teria notícias vindas direto dos municípios
"A idéia do projeto era de trocar informações sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e sobre os Conselhos Tutelares pelo rádio" |
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participantes do projeto, com a ajuda dos radialistas. Devia ter historinhas de rádio-teatro para ficar mais divertido. E, “tchan, tchan, tchan, tchan”... A equipe do projeto teve outra idéia genial: criar um personagem que falasse sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente no programa. Foi aí que eu nasci, o Perereca, super-herói do semi-árido, o mais lindo, o mais charmoso, o mais... |
– O mais modesto, hein, Perereca? Mas, no programa, você é muito é atrapalhado.
– Que é isso, dona Bebel? As nossas atrapalhações são só para fazer graça. Tudo é calculado... Ri ri ri...
– Sei, mas a história é muito bonita mesmo, seu Perereca.
– Sim, sim. E eu lhe digo é mais: para falar na rádio, a gente tem que ter responsabilidade com as informações que vai passar. Eu, como falo do ECA, passei a estudar o livrinho de cabo a rabo. Em toda produção do programa, é o Estatuto que guia a equipe. Vocês não têm idéia do tanto de coisas que estamos aprendendo.
– Perereca, pois agora é hora de você dar o seu recado pra meninada da escola, porque já chegamos, vamos entrar.
Na escola, as professoras chamaram a criançada para o pátio, e foi um alvoroço para conversar com o Perereca. E não é que o super-herói, mesmo todo atrapalhado, falou bonito:
– Criançada, existe um livrinho chamado Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA. Ei, menino, faz cara feia, não. ECA não quer dizer só “meleca”. Quando vocês ouvirem a palavrinha “ ECA”, lembrem-se de que é um livrinho cheio de leis para que os direitos de vocês sejam respeitados. Direito à convivência com a família, à educação, ao esporte, tudo isso tem no ECA. Caso não respeitem os direitos, a denúncia deve ser feita ao Conselho Tutelar. E a criançada não pode esquecer também de fazer a sua parte: estudar é um dever, hein, moçada!
E, durante o burburinho da criançada junto do Perereca, a noite foi caindo. O super-herói, que saiu da rádio e transformou-se em carne, osso e palhaçadas na cidade de Palhano, voltou para Fortaleza cheio de lembranças e novas histórias para contar.
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