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Causos do ECA
18/09/2007

Educação e superação: uma realidade! - Finalista do 3º Concurso Causos do ECA

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Categoria "ECA na Escola"
Marcela Perdão Capelletto
Itatiba (SP)

Professora

Educação e superação: uma realidade!

Sempre gostei de trabalhar com alfabetização, mas meu grande desafio aconteceu no primeiro dia de aula de 2001. Eu havia assumido uma primeira série e estava recebendo os alunos na sala, quando chegou mais uma mãe de mão dada com a filha, entrou e disse:

- Boa tarde, professora! Esta é a Bárbara, sua nova aluna. Ela é surda!

Embora eu já soubesse que iria receber uma aluna surda, naquele momento achei que não estava preparada para isso. Perdi o chão. E agora, o que eu faria? Como ensiná-la? Como socializá-la? E o mais importante: como me comunicar com essa criança?

Para minha sorte, a mãe de Bárbara sempre foi - e é até hoje - muito presente. Primeiro, ganhei dela um manual da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), no qual havia muitas palavras. Em algumas, os sinais eram básicos e, para as mais complicadas, eu pedia orientação à mãe da menina.

Comecei a freqüentar um curso de LIBRAS em outra cidade, pois não havia um em meu município. No segundo semestre daquele ano, as mães dos alunos surdos da cidade fundaram uma instituição em que seus filhos recebiam atendimento com fonoaudiólogos, psicólogos e pedagogos especializados. Um curso de LIBRAS também foi oferecido às crianças. Desde então, não parei mais. O ano terminou e eu não tinha mais uma aluna e uma mãe, mas duas grandes amigas.

Em 2003, a mesma instituição desenvolveu um projeto em parceria com a prefeitura do município: montar uma sala de aula especial, para atender as crianças surdas - um total de oito. Fui convidada para ser a professora, o que me deixou muito feliz. Finalmente essas crianças teriam acesso à escola, como prescreve o artigo 53, incisos I e III do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Era infinita nossa alegria ao ver que estava sendo cumprida uma lei que permitia que aquelas crianças tivessem oportunidade de aprender

A escola escolhida para o funcionamento da classe nos recebeu de braços e corações abertos, desde a direção até o porteiro. Sem contar os alunos que, em momento algum, discriminaram seus colegas surdos. Mas o primeiro ano de trabalho foi muito difícil, pois, embora já freqüentassem salas de aulas regulares, como prescreve o ECA, meus alunos não tinham nenhum conhecimento. Eram apenas copistas nessas salas, já que os professores não utilizavam a LIBRAS, a primeira língua da pessoa surda.

Essas crianças não tinham sequer noção de tempo: ontem, hoje, amanhã ou dias da semana, já que alguns dias iam à escola e, depois, ficavam alguns dias em casa... Mês e ano então, nem se fala. Também não sabiam como se formava uma família e quais eram os graus de parentesco, por exemplo: a minha mãe tem o sinal de mãe, mas ela também tem um nome, e também tem um pai e uma mãe que são meus avós...

Trabalhamos com essa sala por três anos, eu, um intérprete, um coordenador e os pais. Era infinita a nossa alegria ao ver que, naquele momento, estava sendo cumprida uma lei que permitia que aquelas crianças tivessem oportunidade de aprender. E elas aprendiam mais e mais a cada dia.

Em 2006, esses alunos retornaram para as salas de aulas regulares não mais como copistas, já que, a partir de então, as salas possuíam intérpretes, como é direito dessas crianças. Hoje só posso me orgulhar quando ouço elogios a eles. Desde aquele ano trabalho com o serviço de apoio pedagógico a esses alunos, em período contrário às aulas.

Minha maior satisfação, porém, tem sido acompanhar o desenvolvimento de Bárbara, aquela menininha que conheci em 2001. Quando a reencontrei em 2003, ainda era incapaz de escrever ou mesmo de reconhecer qualquer palavra que não fosse seu próprio nome. Desenvolvimento do raciocínio lógico, então, nem pensar, pois se ela não conseguia nem contar até cinco? Hoje, graças ao exercício de seus direitos garantidos por lei, Bárbara produz e interpreta textos usando a língua portuguesa como segunda língua, e faz cálculos matemáticos pertinentes à sua série - a quinta - sem nenhuma dificuldade.


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