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Causos do ECA
29/08/2008

Zezinho e seu quintal verde - Susete Anselmo

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Susete Anselmo
Alto Paraíso – Goiás

Em uma cidadezinha do nordeste goiano, repleta de belezas naturais, com muitas cachoeiras, lindas montanhas, diversidade de plantas, flores, pássaros e animais silvestres, vivia Zezinho. Apesar desse cenário exuberante, procurado por turistas do mundo inteiro, a cidadezinha também apresentava uma realidade oposta: as desigualdades sociais e a falta de oportunidades faziam com que a família de Zezinho e muitas outras vivessem em condições subumanas, às margens da miséria.

Com 13 anos, sem opção nem perspectiva para ter acesso às coisas básicas de que necessitava, Zezinho acabou se envolvendo com pequenos furtos, até que um dia foi pego pela polícia e precisou cumprir a medida socioeducativa de Prestação de Serviço à Comunidade do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA).

É aqui que eu, Susi, educadora ambiental e conselheira de direitos, entro nesta história com o Programa Quintais Verdes – do qual sou coordenadora –, criado para dar oportunidades aos jovens envolvidos em conflitos com a lei. Fui procurada pela Promotoria e comecei o processo de Prestação de Serviço à Comunidade com a primeira visita na casa de Zezinho.

Iniciamos a jornada de seis meses estipulada pelo Ministério Público com a limpeza do quintal, que ficou com um aspecto agradável e propício para aulas em espaço aberto
Nosso primeiro encontro foi muito positivo e pude observar o motivo que o levou a cometer tais infrações. Zezinho morava com seus cinco irmãos, sua mãe e seu pai de 94 anos em um barraco sem saneamento básico, com muito lixo no quintal e pouca comida na cozinha. Para ser mais clara, não vi nenhum tipo de alimento na casa; apenas um abacateiro do lado de fora. E quando sugeri que eles comessem o abacate temperado com sal para passar no pão, logo um dos irmãos menores me olhou e disse: “Mas não tem pão”. Então pude ver que havia muita necessidade de acompanhar aquele jovem e sua família.

Iniciamos a jornada de seis meses, que foi estipulada pelo Ministério Público, com a limpeza do quintal, remoção, reutilização e reciclagem do lixo, etapa da qual alguns amigos do Zezinho também participaram. O quintal ficou com um aspecto agradável e propício para aulas em espaço aberto. Foi daí que comecei a aplicar conceitos básicos de higiene pessoal, agrofloresta e educação ambiental. Depois passamos a plantar hortas orgânicas, mudas nativas e frutíferas todos os dias pela manhã, às vezes com a presença de artistas e músicos voluntários, que tocavam músicas educativas. Nesse clima de descontração, realizávamos as tarefas do dia, que eram encerradas com um delicioso lanche para todos os envolvidos.

Zezinho mostrava-se muito feliz com essa transformação, e seu quintal tornou-se um jardim florestal comestível. A cada dia que passava, as coisas ficavam mais verdes e floridas, tanto no quintal quanto na vida de Zezinho que, juntamente com sua família, irradiava sorrisos de satisfação. Sua mãe disse que os conflitos e brigas que havia na casa cessaram. O que era um montão de lixo virou um local de encontros de amigos e celebração. Logo já estávamos colhendo muitas verduras para servir no lanche e acrescentar nutrientes à alimentação da família.

Seguindo o belo exemplo do trabalho realizado, os vizinhos começaram a fazer o mesmo em seus quintais, deixando-os bem limpos e plantados. Nós doávamos mudas, adubo e sementes para incentivar as outras pessoas a plantarem.

Apesar de a medida socioeducativa já ter se encerrado, ele ainda cuida com muito carinho das plantas
O trabalho realizado no quintal de Zezinho é exemplo para todos e também para o mundo. Agora as árvores plantadas estão muito maiores do que ele. Apesar da medida socioeducativa já ter se encerrado, ele ainda cuida com muito carinho das plantas e também aprendeu a respeitar os pássaros que vêm desfrutar da sombra das árvores plantadas nas ruas e dentro do seu quintal.

Passado o tempo, Zezinho teve a oportunidade de participar de um curso de agrofloresta e se tornou um jardineiro agroflorestal. Exercendo a profissão, ele começou a ganhar um dinheirinho para cuidar de outros quintais. O menino nunca mais precisou cumprir nenhuma medida socioeducativa e hoje vive muito feliz com sua família, amigos e a natureza. Ele aprendeu que se harmonizar com o meio ambiente é uma solução para tornar sua vida mais feliz e para enfrentar os problemas.

Hoje Zezinho tem 18 anos e se transformou em agente multiplicador, provando que vale a pena viver de forma honesta, ganhando o próprio sustento sem comprometer a sua liberdade.

Fica aqui uma história bonita em que o ECA ajudou, não somente ao Zezinho, mas a toda sua família e vizinhança, que também se beneficiaram com o Programa Quintais Verdes, que incentiva jovens com atitudes ecologicamente corretas e dá oportunidade para que muitos outros possam se tornar cidadãos comprometidos com o destino do nosso planeta.

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