26 de setembro de 2007
sob a coordenação da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI)*
Aos 15 anos, Roberto (nome fictício), estudante de um colégio particular da cidade de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, é o prim eiro a se manifestar em uma roda de amigos quando o assunto é consumo de álcool. Ele conta orgulhoso que, há três meses, levou para a escola uma lata de cerveja e outra de refrigerante escondidas na mochila. A bebida alcoólica foi transferida para a latinha aparentemente inofensiva e tomada pelo adolescente no pátio. No mesmo grupo, outros adolescentes contam que já presenciaram colegas bêbados nas aulas e afirmam que o cigarro é visto pelos corredores, apesar de proibido.
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A bebida alcoólica foi transferida para a latinha aparentemente inofensiva e tomada pelo adolescente no pátio
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Conforme o artigo 81 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a venda de bebidas alcoólicas e cigarros para menores de 18 anos não é permitida. Por todo o País há leis estaduais e municipais que proíbem os alunos de fumar nas escolas, estabelecendo a obrigatoriedade da promoção de campanhas e afixação de cartazes sobre os malefícios do fumo. As proibições, no entanto, não inibem o uso dessas duas drogas pelos adolescentes no ambiente escolar. “ Eu bebo cerveja desde os 14 anos. Levei para escola porque queria zoar. Compro em qualquer lugar sem problemas”, conta Roberto.
Coordenadora do Sindicato Estadual dos Professores do Rio de Janeiro, a professora Beatriz Lugão diz que, nas escolas públicas, não é rara a entrada de bebidas alcoólicas escondidas. Ela comenta que não existe uma regra sobre como as instituições de ensino devem proceder nesses casos. Uma outra educadora, que prefere não ser identificada, lembra que o diálogo com os adolescentes não é fácil. “Eles alegam ser adultos e os professores são hostilizados. Por isso, quando passo por alunos fumando no corredor, finjo que não vejo”, confessa a professora.
Drogas lícitas como única alternativa de lazer
Levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) com 48.155 estudantes dos Ensinos Fundamental e Médio da rede pública de 27 capitais do País, em 2004, revelou que 64,5% dos meninos entrevistados tinham experimentado álcool. Já o percentual entre as meninas era de 66,3%. Entre aqueles que já tinham usado o tabaco, 25,2% eram do sexo masculino e 24,7% do feminino.
A pesquisa também mostrou que 11,7% dos meninos e meninas fazem o uso freqüente (pelo menos duas vezes na semana) de álcool e 3,8% de cigarro. Entre os entrevistados, 41,2% experimentaram o álcool pela primeira vez com idade entre 10 e 12 anos. Já o cigarro foi usado por 7% dos alunos com a mesma faixa etária.
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“Entre os estudantes da periferia que usam álcool e cigarro, o grande problema está na falta de alternativas de lazer”
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“Entre os estudantes da periferia que usam álcool e cigarro, o grande problema está na falta de alternativas de lazer”, lamenta o presidente do Cebrid, o psicofarmacólogo Elisaldo Carlini. Segundo o especialista, a ausência de atividades culturais, espaços e equipamentos esportivos nas comunidades faz com que o consumo de drogas lícitas se torne a única alternativa para os jovens interagirem e se divertirem.
De acordo com a psicóloga e diretora da Clinica Evolução, no Rio, Selene Barreto, a busca pelo prazer é a principal razão que leva o adolescente a fumar e beber. Segundo ela, a atitude está relacionada ao sentimento de ser aceito pelos amigos, de chamar a atenção, e de parecer mais velho, seja por pressão do grupo ou como forma de seguir um modelo cultural visto em casa, já que alguns pais têm o mesmo hábito.
Pedagogia do terror
Coordenador do Programa Viva Mais, da Unicamp, e professor da Faculdade de Ciências Médicas da PUC-Campinas, o psiquiatra Élson Lima vê erros na maneira como as escolas abordam o uso das drogas lícitas. Para o especialista, existe uma postura – chamada por ele de “pedagogia do terror” –, de mostrar apenas os pontos negativos por meio de críticas. “Na maioria da vezes, as escolas falam que o cigarro mata e quais doenças são causadas pelo uso do tabaco”, exemplifica. Segundo o professor, os malefícios devem ser apresentados com argumentos médicos, na discussão de temas sobre saúde e comportamentos de risco.
A psicóloga Selene Barreto explica que muitas escolas implantam programas de prevenção ao uso de drogas. No entanto, alguns profissionais revelam que a maioria só cumpre a lei com palestras pontuais. A especialista explica que, para implantar uma política de prevenção ao uso, abuso e dependência de álcool e outras drogas, o colégio deve capacitar os professores, passando por ações de assistência e educação dos alunos até orientação dos funcionários, sem esquecer de envolver os pais. “O primeiro contato com a bebida, normalmente, ocorre em casa, quando o pai diz que um golinho não faz mal”, conta.
No caso do álcool, a psicóloga orienta as famílias a conversar com o filho expondo preocupações como acidentes de carro, brigas e gravidez indesejada. "Alguns pais têm noção de que o diálogo é muito importante, mas, muitas vezes, o deixam de lado. A conversa, porém, dever estar associada ao limite do comportamento", diz Selene.