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27/06/2008

O gosto do açúcar

Foto: Divulgação
Quando conheci Catiele, ela estava na cozinha batendo um bolo. Depois de colocá-lo no forno, lidava com o pacote do açúcar que tinha usado e que agora estava vazio. Recortou um pedaço. Era o desenho de um coração vermelho e uma frase: Viver é o máximo.

Catiele achou bonito e guardou entre as folhas do caderno dela, junto com outras frases ou desenhos que vinham em outros produtos, e que lhe traziam algumas mensagens que alcançavam seus sentimentos e sonhos de menina.

Catiele tem 15 anos, está grávida há seis meses e mora numa casa onde vivem outras meninas na mesma situação que ela: todas grávidas e abandonadas. Todas com histórias parecidas.

Quando Catiele nasceu, a mãe dela a deu para uma família. A menina nunca conheceu a mãe verdadeira. Essa família criou a Catiele até os nove anos de idade, sem nunca matricular a garota numa escola.

Mudança de endereço: a família de criação deu Catiele para uma segunda família, onde viveu por mais dois anos.

Nova mudança de endereço. Essa segunda família deu a menina – com todos os documentos dela -, para uma terceira família, desta vez, do Rio de Janeiro. Lá começou a ser espancada, conseguiu fugir e denunciar os maus-tratos para a polícia.

Foi assim que começou a sua vida nas casas abrigo para crianças abandonadas.

A antiga “mãe”, que criou Catiele até os nove anos, soube do acontecido e foi buscá-la no Rio. Mas o marido dela não queria mais a menina na casa deles, então a “mãe” deixou a menina num abrigo em São Paulo.

Catiele não gosta de dizer que não tem ninguém neste mundo que olhe por ela, então ela conta que, de vez em quando, a “mãe” vem visitá-la

Naquela época, com 11 anos, ela foi colocada para adoção e ainda tinha esperança de que alguma mãe, que ainda não tinha entrado na história, gostasse dela e a tratasse como filha.

O tempo passou e ela percebeu que isso nunca iria acontecer na vida dela. Desesperada, um dia, fugiu. Morou três meses na rua e foi aí que se descobriu grávida. Catiele já tinha 14 anos. Sem ter para onde ir, acabou num novo abrigo, especial para adolescentes grávidas.

Catiele não gosta de dizer que não tem ninguém neste mundo que olhe por ela, então ela conta que, de vez em quando, a “mãe” vem visitá-la. Essa “mãe” é aquela da primeira família que a criou até os nove anos de idade. Ela costuma fazer uma visita a cada três, quatro meses. De alguma forma, Catiele se entrega à sensação de que tem aí um vínculo estabelecido. Por pior que ele seja, é alguma coisa.

Quando estive lá, era fins de novembro e a grande preocupação de Catiele era o Natal. Escreveu uma carta para a responsável pelo abrigo, e permitiu que eu lesse antes de entregá-la, esperando aprovação. O texto segue na íntegra.

“Querida tia Carmen,

Obrigada por sua preocupação comigo. Gosto muito de saber que alguém se preocupa comigo. Tia, como você sabe, eu não tenho família para passar o Natal, e eu não gostaria de mais uma vez passar o Natal trancada no abrigo. Não estou dizendo que aqui é uma prisão, mas não é bom saber que as pessoas estão festejando e eu aqui só vendo as coisas pela tevê. Sei que ainda não chegou o Natal, mas estamos perto, e gostaria que a senhora pensasse na minha felicidade um pouco. Seria um dos meus sonhos que a senhora estaria realizando. Gostaria de dizer que gosto muito, muito da senhora.

Catiele de Souza”

Naquele dezembro, Catiele passou mais um Natal vendo a alegria pela televisão.

 

*Os textos publicados na área Colunistas são de responsabilidade dos autores e não exprimem necessariamente a visão do portal Pró-menino.



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