A notícia caiu feito uma bomba diante de um grupo de educadores perplexos: devíamos inserir três adolescentes com síndrome de Down em uma turma consolidada, que já tinha um ritmo de aprendizagem e de produção. Começava assim nossa experiência com Débora, Jane e Gustavo, incluídos no serviço de apoio socioeducativo em que trabalhamos.
Eu talvez fosse o mais inseguro de todos, porque dependo da expressividade verbal dos educandos para desenvolver a oficina de Educomunicação. Minha insegurança, porém, era do tipo que nasce do medo de experimentar e de pôr à prova convicções e métodos cristalizados. Algo que perturbava a estabilidade de quem já tinha encontrado sua zona de conforto. E, por que não dizer, uma insegurança que mal disfarçava um certo preconceito: “Não posso trabalhar com educandos especiais, se não fui capacitado para isso!”
A fase de adaptação foi mais fácil do que eu imaginava. A aceitação dos novos colegas por parte da turma ajudou muito. Débora e Jane, vez ou outra, mostravam uma certa resistência à integração com o grupo e às regras básicas da oficina. Nada que uma boa mediação não resolvesse. Gustavo, por sua vez, pouco empenho exigia de minha parte, dada a sua facilidade em interagir com os outros educandos e compreender o que se propunha ou se esperava dele a cada atividade.
| Desdobrei-me em atenção aos três novos educandos, apegando-me à possibilidade de estabelecer com eles um vínculo afetivo |
|
Mesmo assim, minhas resistências falaram mais alto, por isso não me lancei a essa experiência com a confiança que deveria ter. Talvez fossem as concepções arraigadas, ecoando em minha consciência aquela visão tradicional de que “crianças especiais precisam ser tratadas como especiais”. Afinal, sempre foi assim no universo de uma educação que privilegia os “mais aptos”. Desdobrei-me em atenção aos três novos educandos, apegando-me à possibilidade de estabelecer com eles um vínculo afetivo. Era como se o carinho e o bem-querer conquistados suprissem minha incapacidade de contribuir para o seu desenvolvimento cognitivo e social.
Tudo parecia correr bem com a inserção dos educandos na turma. Relatos de meus colegas educadores, em geral entusiasmados com a evolução dos novos e a cooperação dos demais, eram freqüentes. No meu caso, pensei, bastaria adequar os objetivos da oficina à nova realidade daquela turma, evitando atividades que recorressem à expressão verbal. Não percebia que estava privando aqueles educandos das experiências de outras turmas que fazem exercícios de locução e gravação em vídeo. Passei a focar muito mais a comunicação visual, por acreditar que tornaria as práticas mais acessíveis ao Gustavo, à Jane e à Débora.
Não demorou muito para eu perceber que era inviável pressupor um nivelamento da turma. Na verdade, a presença de adolescentes com síndrome de Down criava uma oportunidade imensa de trabalhar com a diversidade. Como eu não conseguia fazer essa leitura, acabei cedendo à tentação de diferenciar o conteúdo e objetivo de cada atividade, oferecendo sempre uma alternativa diferente aos três educandos. Toda semana, ao realizar a oficina com aquela turma, disponibilizava um arsenal de materiais como tesoura, cola, papéis, lápis e canetas coloridas. É claro que eles se ocupavam facilmente e, com exceção do Gustavo, pareciam não se importar nem um pouco com a atividade do restante da turma. E foi justamente esse garoto maravilhoso que, com seus olhinhos muito vivos e sua curiosidade estampada no rosto, encorajou-me a fazer o que todo educador precisa aprender: não limitar o horizonte de aprendizagem dos seus educandos.
O artigo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que trata do direito fundamental à educação é muito claro quando aponta para o “pleno desenvolvimento” da criança e do adolescente e preconiza a “igualdade de condições” que deve permear toda sua experiência educacional.
Em uma certa tarde, eu estava pronto para iniciar as atividades com a turma e estranhei o desinteresse do trio quanto aos materiais de pintura e colagem. Segui em frente: distribui uma folha contendo uma matéria e, como de costume, pedi voluntários para a leitura. Para minha surpresa, Gustavo levantou o braço, um tanto tímido, mas decidido. Fiquei preocupado, pois leitura em voz alta é um momento de exposição diante do grupo, o que poderia ser constrangedor para um educando que não fosse bastante fluente.
| O que interessava, naquele instante, era que o grupo praticava verdadeiramente a inclusão |
|
Preciso dizer que foi um dos momentos mais gratificantes e de grande emoção em minha trajetória de educador. Evidentemente que a leitura do Gustavo não teve a mesma fluência da de outros, mas isso não teve a menor importância para ele, para mim ou para qualquer pessoa naquela sala. O que interessava, naquele instante, era que o grupo praticava verdadeiramente a inclusão. Convidei a Jane e a Débora para lerem também um trecho da matéria e elas corresponderam, vencendo um aparente medo de não serem valorizadas. Pela primeira vez, senti que olhava para aquelas garotas e garoto acreditando sinceramente no seu potencial.
Mesmo com uma experiência assim tão rica, pude constatar, em outra ocasião, que nossos atavismos estão sempre nos espreitando, prontos para nos fazerem recuar em relação ao que já progredimos. Levei a turma à biblioteca, um dia, para realizar um bingo literário e, quando me dei conta de que o jogo exigia leitura rápida de pequenos textos, passei a procurar em meus arquivos mentais uma estratégia, qualquer plano B que evitasse a exposição da leitura mais lenta dos três pupilos. Antes, porém, de concretizar essa idéia excludente, tive outra: destacarmos ajudantes de leitura para que Jane, Gustavo e Débora não perdessem nenhum dos trechos literários do bingo. Foi muito gratificante ver a alegria dos três em participar e concorrer, de igual para igual, da brincadeira.
Hoje tenho mais segurança para trabalhar a leitura com todos os educandos da turma, respeitando as diferenças. E mais: percebo como é importante que cada um reconheça seus progressos e respeite o ritmo e evolução do outro. Sei que tenho muitos pontos a melhorar, mas sinto-me renovado e confiante no meu papel de educador.
|