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12/06/2008

Coordenadoras de Redes falam sobre os desafios da mobilização

LETÍCIA ROCHA
da redação do Portal Pró-Menino

 
  
Araçatuba possuía muitas entidades de apoio à criança e ao adolescente, mas elas pouco conversavam entre si. No Guarujá, sabia-se da importância da criação de uma rede de atendimento, mas havia dúvidas sobre o caminho a seguir para implementá-la. Em Bebedouro, havia uma tentativa de trabalho conjunto, mas que precisava de orientação e de uma força extra.
 
Entidades dessas cidades enviaram, em 2005, propostas para a Fundação Telefônica, que na época selecionava projetos de Redes para apoio. Elas foram selecionadas, assim como outras cinco cidades do Estado de São Paulo, e desde então trabalham constantemente na mobilização das entidades e das pessoas que trabalham com crianças e adolescentes em seus municípios.
 
Esse trabalho de mobilização tem características próprias em cada cidade, respondendo às suas especificidades. Conheça um pouco mais sobre o processo, as principais dificuldades e os resultados da implementação da Rede nos três municípios, através de entrevistas com os coordenadores das redes locais.
 

Hoje em dia, com as parcerias, o trabalho é mais rápido, eficiente e menos oneroso.
Entrevista com Maria Alice Alves Coelho, coordenadora do Projeto Rede Criança e Adolescente de Bebedouro
 
Pró-Menino – Como foi o processo de mobilização para a criação da rede?
Maria Alice – Em Bebedouro, havia uma equipe multidisciplinar voluntária que trabalhava nos casos mais vulneráveis e nós ajudávamos encaminhando as crianças. Com esse trabalho, percebemos o valor da atuação em conjunto e resolvemos criar a Rede Criança e Adolescente. Pedimos para o prefeito que fizesse essa rede, que foi criada em 2005, como programa da prefeitura. A partir de então, começamos a nos mobilizar, fazendo parcerias com o Senac e com as Faculdades Integradas de Bebedouro (Fafibe), que deram cursos de capacitação sobre trabalho em rede para as entidades. Nesse espaço de formação, fizemos também um trabalho de reconhecimento das entidades. Os representantes falaram sobre seus trabalhos e, dessa forma, vimos o que cada um tinha para oferecer e quais eram suas necessidades. Hoje fazemos parte da Rede Social São Paulo, que engloba a região. Somos muito solicitados para falar sobre redes para outras cidades que também querem formar a sua.
 
Pró-Menino – Quais foram os principais desafios encontrados?
Maria Alice – Foram muitos, porque cada entidade trabalhava para si. Hoje em dia há as parcerias e o trabalho é mais rápido, eficiente e menos oneroso. Além disso, o número de funcionários numa entidade é muito restrito, por falta de recursos, então é difícil para a entidade liberar seu pessoal para freqüentar as reuniões semanais – com o grupo gestor – e as reuniões mensais – abertas a todos os funcionários. Outra dificuldade foi a informatização. Graças à Fundação Telefônica, conseguimos os computadores, mas existiam pontos da cidade em que não chegava a internet. Tivemos que solicitar esses pontos à Telefônica. Outro problema é o processo de licitação, que é demorado e atrasa a resolução de certos problemas.
 
Pró-Menino – Quais instituições foram mais importantes para a mobilização?
Maria Alice – Foram muitas. Os departamentos da saúde, da educação, da assistência social. Todas foram muito importantes.
 
Pró-Menino – O processo de mobilização durou quanto tempo?
Maria Alice – Esse processo não termina e a rede continua aumentando.
 
Pró-Menino – Como você avalia os resultados da mobilização?
Maria Alice – O resultado foi bom. Aos poucos vamos aderindo mais participantes, na medida em que as pessoas vão se conscientizando. As parcerias, como a da Fundação Telefônica, vão abrindo espaço. Recentemente tivemos nosso projeto aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que irá construir a Casa dos Conselhos, um abrigo para adolescentes e um espaço cultural para jovens. Estamos conseguindo novos parceiros. A imprensa nos ajudou divulgando nossas ações e tornando a rede conhecida, tornando-a uma referência. Hoje, nossa rede é lei. Mesmo que mude o prefeito, a sua continuidade e sustentabilidade, está garantida.
 
 
 
Foram criados laços entre as entidades que já estão institucionalizados e não se desfazem mais
Entrevista com Rosângela Vecchia coordenadora do Projeto Ciranda de Araçatuba
 
Pró-Menino – Como foi o processo de mobilização para a criação da rede?
Rosângela – Araçatuba tinha uma estrutura bastante grande na área de atendimento à criança e ao adolescente, com diversos projetos e entidades. O problema era a falta de integração. Por exemplo, era uma dificuldade conseguir pessoal para fazer parte do Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes (CMDCA) quando havia eleição. Muitas entidades mal se conheciam e quase ninguém sabia a extensão real da rede de proteção à criança e ao adolescente. Quando propusemos o projeto para a Fundação Telefônica, nós apontamos a falta de uma rede social – o que havia eram entidades e pessoas trabalhando de forma isolada. Das oito redes apoiadas pela Fundação, a de Araçatuba era a menos articulada. Nossa grande expectativa era de que o projeto ajudasse a estimular a integração, o que de fato ocorreu. Primeiro foi necessário mapear os atores para convidá-los a participar do programa de capacitação. Foi um estudo grande para saber quem atuava em Araçatuba na área de proteção à criança e ao adolescente. No programa de capacitação, tínhamos encontros semanais. Na medida em que trabalhávamos os conteúdos do curso de capacitação, tínhamos um espaço de discussão no final de cada tema, o que permitiu a integração entre as entidades.
 
Pró-Menino – Quais foram os principais desafios encontrados?
Rosângela – Manter a agenda funcionando em cima de propósitos específicos e trabalhar a resistência que as entidades tinham – e ainda têm um pouco – para dividir informações. Outro grande desafio foi envolver alguns setores do poder público municipal, como a área da educação e da assistência social. Uma dificuldade que temos até hoje é de envolver a área da saúde. Também há a dificuldade em lidar com a questão tecnológica, do software. Nós fornecemos cursos de capacitação para as pessoas que têm dificuldade para lidar com computadores. Há também a preocupação com a circulação das informações sobre as crianças e os adolescentes. Há informações delicadas, que não circulam e ficam restritas a determinados profissionais.
 
Pró-Menino – Quais instituições foram mais importantes para a mobilização?
Rosângela – No caso de Araçatuba, tivemos o envolvimento do Centro Universitário Toledo (Unitoledo). O programa de capacitação foi oferecido como curso de extensão universitária, o que possibilita a certificação das pessoas que freqüentam as aulas. Isso passou a ser um atrativo. Tivemos, nesse aspecto, uma colaboração das entidades e do poder público, que liberavam os funcionários para freqüentar a aula uma vez por semana. A capacitação também não se restringiu a Araçatuba. Havia profissionais de mais de 13 municípios.
 
Pró-Menino – O processo de mobilização durou quanto tempo?
Rosângela – Nós estamos no segundo ano e entendemos que a formação permanente dos profissionais da área á um elemento de mobilização. Há sempre gente entrando e saindo dessa rede, o que exige um programa de capacitação permanente, não só para formar quem trabalha na área, mas também para manter um espaço de mobilização.
 
Pró-Menino – Como você avalia os resultados da mobilização?
Rosângela – Esse processo foi muito importante. Sempre há o que melhorar e às vezes surgem conflitos entre os atores participantes da rede, mas são coisas naturais, do cotidiano. Temos sempre que ter eventos ou situações que criem uma motivação para a continuidade da rede. Mas foram criados laços entre as entidades que já estão institucionalizados e não se desfazem mais. A rede conseguiu fazer com que as pessoas parassem de ter uma visão só da porta para dentro de sua entidade e enxergassem o contexto da cidade e as dificuldades nas políticas públicas, que acabam ampliando a demanda da entidade.
 
 
 
 
O maior desafio é manter a rede estimulada, participante
Entrevista com Iara Bega de Paiva, coordenadora da Rede Cardume do Guarujá
 
Pró-Menino – Como foi o processo de mobilização para a criação da rede?
Iara – Com o apoio de algumas empresas, entre elas a Fundação Telefônica, surgiu um estímulo para que as entidades se reunissem, discutissem formas de melhoria no atendimento de crianças e adolescentes. Naquele momento, já pensávamos em fazer uma rede on-line, mas não sabíamos como concretizar isso. No segundo semestre de 2005 a Telefônica lançou o concurso de projetos para a criação de redes. O Conselho, amparado pela ONG Centro do Voluntariado do Guarujá (CVG), escreveu uma proposta que foi selecionada. O projeto começou dessa forma – uma parceria entre a prefeitura, o CVG e a Fundação Telefônica. Com a seleção do projeto no concurso, percebemos que a idéia sairia do papel e começamos a fazer várias atividades para chamar as pessoas para o projetos. Fizemos diversos encontros e o evento de lançamento da Rede Cardume.
 
Pró-Menino – Quais foram os principais desafios encontrados?
Iara – Foi, e ainda é, manter essa rede estimulada, participante. Há momentos em que conseguimos maior aglutinação. Há uma reunião mensal que funciona como um fórum de debates, mas a participação não é tão ativa, temos que criar estímulos constantes para que as pessoas compareçam. Está faltando divulgar mais a rede na mídia, torná-la mais conhecida. Precisamos fazer uma comunicação com caráter mais profissional. A rede é da cidade, ela não pode desaparecer quando eu me afastar ou quando mudar o governo. Só que o município precisa se apropriar dessa rede, mas pra isso a população tem que saber o que ela é e o que ela faz. Outro desafio é o uso do software que será implementado. Temos que pensar também nos desafios futuros, como a manutenção dos computadores, que por enquanto estão novos.
 
Pró-Menino – Quais instituições foram mais importantes para a mobilização?
Iara – O Conselho Municipal dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes (CMDCA) e o próprio poder judiciário e o Ministério Público, que foram convidados a participar do projeto e que criaram bastante estímulo, convidando novos participantes. A prefeitura tem uma participação importante, que deve aumentar quando terminar o financiamento da Fundação Telefônica.
 
Pró-Menino – O processo de mobilização durou quanto tempo?
Iara – Estamos entrando agora na segunda fase do projeto. A mobilização continua, sempre entram pessoas novas, pessoas que ainda não conheciam o projeto ou que passam a se envolver com a questão do atendimento à criança e ao adolescente. Acho que vai ser um processo contínuo, sem fim.
 
Pró-Menino – Como você avalia os resultados da mobilização?
Iara – Eu faço uma avaliação positiva. Pelo tempo de existência da rede, apenas dois anos, acho que foi um trabalho importante, que espero que continue crescendo, que não esmoreça.


Leia mais:

Por que devemos trabalhar em rede?
Livro Tecendo Redes - Parcerias que fazem história
Veja também como foi o bate-papo com Chico Whitaker, especialista em mobilização social

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