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Causos do ECA
29/08/2008

O maior presente - Maria Inês Amarante

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Maria Inês Amarante
São Paulo – São Paulo

Todo professor tem muitas histórias felizes para contar sobre seus alunos, mas nem sempre derrama lágrimas de emoção ao relembrar cenas inesquecíveis, como até hoje acontece comigo.

Esta história começou em 1998, na periferia de Fortaleza, no Ceará. Naquela época, eu trabalhava em uma organização não-governamental e, com uma equipe de comunicadores, desenvolvia um projeto educativo. Nossa missão era preparar alunos da rede pública para atuar em rádios comunitárias instaladas em suas escolas.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) era nosso grande aliado: conversávamos com os jovens sobre seus direitos e, sobretudo, a respeito das experiências de vida que tinham, assuntos que não apareciam na grande mídia. O debate, caloroso e animado, girava quase sempre em torno da prevenção ao uso de drogas, pois nas cercanias da escola havia um forte apelo de colegas envolvidos em brigas de gangues rivais. Falávamos também das dificuldades familiares causadas pela condição social dos pais, da falta de lazer no bairro, da sexualidade e até sobre saúde e gravidez precoce.

Com o passar do tempo, percebemos que, de forma organizada e conforme seus gostos e talentos, os adolescentes iam se especializando nas tarefas realizadas em equipe: uns faziam reportagens, outros se ocupavam da locução, programação ou operação técnica, e havia também os redatores que adoravam escrever roteiros.

Na escola, perto dos alto-falantes instalados no pátio ou das caixinhas de som das salas de aula, todos esperavam o momento mágico em que a rádio iniciava sua programação. Dentro de um estúdio simples, os comunicadores usavam os microfones para acolher os colegas com a leitura de uma mensagem de boas vindas. No recreio, divulgavam muita informação interessante: projetos, comemorações, avisos da escola, recadinhos do coração, mensagens, anúncios de aniversários e tudo o mais que acontecesse, com trilha sonora variada, para animar. Tinha até correção ao vivo de erros de português, feita pelos professores.

De forma organizada e conforme seus gostos e talentos, os adolescentes iam se especializando nas tarefas realizadas em equipe
A falta de acervo musical era suprida com a solidariedade das doações e empréstimos de CDs e fitas-cassete trazidas por alunos. Essas músicas foram se tornando, aos poucos, uma forma natural de comunicação da rádio com a comunidade escolar, aprimorando laços e criando um ambiente mais propício às festividades do que à violência.

O sucesso foi imenso e a rádio excedeu as expectativas. Para surpresa nossa, ela acabou se expandindo para além do espaço do estúdio, pois o pátio interno transformou-se em auditório para apresentação de eventos, num despertar de novas relações de amizade e convivência entre a meninada.

Não demorou muito para ela ganhar também inesperada popularidade no bairro. Tal e qual repórteres profissionais, os alunos saíam às ruas munidos de papel e lápis, quando não havia gravador, para fazer entrevistas e pesquisas, que depois transformavam em matérias. Assim eles conseguiam melhorar a qualidade dos programas.

A evolução deles foi tão grande quanto o prazer de vir à escola. Com o microfone na mão e o poder transformador da palavra, foram desenvolvendo a habilidade de comunicar e refletir. Essa autoconfiança despertou o desejo de participar mais, dentro e fora do ambiente educativo, reivindicando seus direitos. Os adolescentes se sentiram úteis, reconhecidos como pessoas capazes de falar, dar opiniões, servir de exemplo aos colegas.

Durante uma de minhas visitas de acompanhamento, notei que o radioteatro era motivo de atração e libertava o imaginário dos jovens. Ali, naquele palco sonoro, algo novo acontecia: todos podiam realizar seus desejos com grande criatividade. Se na vida real nem sempre a solução dos problemas tinha um final feliz, no mundo da ficção tudo era possível: salvar o meio ambiente, acabar com a dengue ou com a pobreza, falar sem censura sobre amor e sexo, reciclar o lixo e até melhorar a qualidade da merenda oferecida.

Mas a maior surpresa mesmo veio quando percebi que os alunos começaram a escrever histórias baseadas no ECA. E foram muitas! Até hoje, guardo com carinho alguns textos escritos às pressas, com indicação dos personagens.

Essa autoconfiança despertou o desejo de participar mais, dentro e fora do ambiente educativo, reivindicando seus direitos
Em uma das escolas, um grupo de meninas reuniu-se para criar um programa chamado Tertúlia, cujo ponto alto era a radionovela. Um desses dramas, chamado Diga Não ao Trabalho Infantil, roteirizado por elas com bastante humor, ficou famoso e mereceu elogios. A história se passava em uma fazenda, onde uma menina, filha de um pobre agricultor, era explorada pela patroa, que a obrigava a trabalhar com os adultos na plantação. Durante uma visita de fiscais, que vêm apurar uma denúncia, tudo é descoberto, apesar do jogo de esconde-esconde da patroa. No final, a criança é retirada do trabalho e levada de volta ao convívio familiar e escolar.

Achamos a história tão significativa que, para incentivar as meninas a prosseguir aquele trabalho, decidimos inscrever o programa num concurso: o 2º Grande Prêmio de Jornalismo Ayrton Senna. Acompanhamos as jovens comunicadoras ao estúdio da ONG, ajudamos na produção e gravamos as fitas para enviar pelo correio. Foi um corre-corre de última hora! Qual não foi nossa surpresa quando, pouco tempo depois, recebemos um convite para ir a São Paulo, pois estávamos entre os cinco finalistas do prêmio.

Foi assim que, numa noite fria de maio, me vi na platéia daquele teatro iluminado, entre risos e choros de emoção. Com a vista embaçada, eu contemplava o palco onde, diante de mim e de reconhecidos nomes da mídia, dois de meus alunos, nascidos em comunidades tão simples, seguravam vitoriosos o troféu do 1º Prêmio de Rádio, símbolo de um sonho nascido de uma dedicação comum.

Naquele momento único, esqueci-me de todos os obstáculos encontrados em minha vida de educadora e só pensei que um novo milênio de esperanças nos valores humanos se anunciava. Ainda hoje acredito nisso e em tudo o que o projeto proporcionou. Este foi, sem dúvida, o maior presente que recebi.

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