O cenário do nosso causo é a pequena cidade de São Miguel do Guaporé, no interior do Estado de Rondônia. O município conta com uma população de 25 mil habitantes, vive praticamente do cultivo de arroz e café, da agricultura familiar e do gado leiteiro e de corte. A cidadezinha – localizada a mais ou menos 12 horas da capital Porto Velho, se percorrida de ônibus –, tem todo um perfil capaz de desestimular muitas crianças ou adolescentes a terem seus direitos garantidos. Só mesmo conhecendo o local pra entender... Imagine uma cidade de escolas públicas com infra-estrutura ruim, uma única biblioteca municipal (minúscula!), sem teatro, sem museu, sem cinema, uma única quadra esportiva municipal, apta apenas para a prática de futebol de salão, handebol e voleibol...
A Escola Estadual Princesa Isabel, como praticamente todas da cidade, não contava com muitos atrativos: arquitetura simples, paisagismo “zero”, necessidade de reforma, vandalismo, professores mal remunerados, evasão escolar, enfim, o ambiente não era o mais adequado para instigar os alunos a produzir. Arregaçando as mangas, um pequeno grupo formado por quatro alunos do primeiro ano do Ensino Médio dessa escola começou a criar projetos “ambiciosos”, com finalidades variadas.
O primeiro foi o Jornal Escola Viva, pelo qual os alunos eram incentivados à prática da leitura, por meio da veiculação de uma espécie de jornalzinho de caráter educativo, informativo e de lazer, com assuntos que interessassem ao público infanto-juvenil, produzido pelos próprios alunos.
| Arregaçando as mangas, um pequeno grupo formado por quatro alunos do primeiro ano do Ensino Médio dessa escola começou a criar projetos “ambiciosos” |
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O segundo projeto foi chamado Ver e Conhecer, em que uma equipe de colaboradores do jornal e alguns alunos do Ensino Médio realizaram uma viagem à cidade de Ji-Paraná. O objetivo era conhecer o jornal Folha de Rondônia, seus diversos ambientes, maquinário, profissionais atuantes da área, o funcionamento da empresa como um todo. Fascinante! Foram bem recepcionados, esclareceram diversas dúvidas, tiveram contato com um monte de pessoas da empresa, conheceram diversos equipamentos, receberam dicas para o jornalzinho... Contentamento total.
Cidadãos: Passos Para o Futuro foi o título do terceiro projeto, em que os alunos realizaram um passeio cultural à capital do Estado. A garotada curtiu demais! Conheceram um monte de pontos turísticos naturais, históricos e religiosos, além de feiras, lojas, praças e órgãos públicos, como a Assembléia Legislativa e o Palácio do Governo. Para o adolescente Moacir Gurgacz, aquela talvez fosse a única oportunidade de conhecer Porto Velho, antes de ele se tornar adulto. Nesse mesmo projeto, ao visitarem o campus da Universidade Federal de Rondônia, os alunos foram convidados pelo doutor Assis Machado a participar do Projeto de Iniciação Científica no Ensino Médio (PROICEM).
Não se esquecendo do convite do doutor Assis Machado, um grupo pequeno desses estudantes (apenas quatro), preparou-se, após alguns meses, para participar do PROICEM. Próxima parada: Porto Velho! A longa viagem foi pura festa para os adolescentes, que não agüentavam mais esperar para chegar à capital, dessa vez de carro. Eles apreciavam cada segundo olhando pela janela, para não perder nenhum momento de conhecer um pouco mais das cidades por onde passavam e da triste realidade amazônica, de paisagens repletas de sítios e fazendas, pastos em vez de florestas.
Esse último projeto abria os olhos deles para novos horizontes: iniciação científica, um primeiro contato com a vida acadêmica. Leram teses de doutorado e dissertações de mestrado, realizaram fichamentos e uma apresentação para um time de professores. “Show de bola”. Houve, inclusive, sabatina e avaliação.
| É possível escrever um grande livro apenas com as implicações pessoais e a importância que os projetos tiveram na vida de cada um dos participantes |
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Todos esses acontecimentos narrados preencheram um pequeno trecho na vida de cada um dos diversos adolescentes. Eles se alimentaram de algo escasso no “prato” brasileiro: oportunidade. Oxalá cada brasileirinho pudesse exercer seus direitos de maneira igualitária...
Este relato extremamente é breve e superficial. Tenho certeza absoluta de que é possível escrever um grande livro apenas com as implicações pessoais e a importância que eles tiveram na vida de cada um dos participantes.
A aplicação eficaz do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) aconteceu, de início, sem que fosse claramente percebida. Para que todos os projetos obtivessem sucesso, uma gigantesca gama de procedimentos teve de ser realizada: todos fizeram sua parte. A iniciativa foi dos alunos, mas a sociedade civil e os profissionais competentes das instituições de ensino foram os pedestais que deram suporte para que tudo aquilo acontecesse. Envio de ofícios, telefonemas, impressão, auxílio na elaboração técnica dos projetos, arrecadação de recursos financeiros — a dura arrecadação! —, correções textuais, orientação educacional, empréstimo de materiais, reserva de ônibus, contatos com a representação de ensino e da Secretaria Municipal da Educação e tantas outras coisas, capazes de formar uma lista enorme.
Foi notável a imensa mobilização de professores, diretor, vice-diretora, representantes de ensino, secretário municipal de educação, supervisores, orientadora educacional, patrocinadores (comerciantes locais e microempresários) e familiares dos alunos. Em parte, a experiência foi difícil e cansativa, mas, ao longo de três anos, os projetos foram concretizados e, com certeza, deram frutos.
Os beneficiários dos projetos receberam pinceladas na aquarela da vida, que assim pôde ser preenchida com um pouco mais de conhecimento, cultura, arte, lazer, viagem, convivência, novos aprendizados, novos sabores, novas experiências, novas práticas...
Um dos alunos que teve a iniciativa de “inventar” coisas pra fazer, coadjuvante na elaboração dos projetos, hoje estuda numa universidade em Curitiba (PR), cursa Jornalismo, agradece a Deus pelas oportunidades que teve poucos anos atrás e termina de escrever este causo.
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